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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Nova Hipocrisia

(aprés Pondé)

Na época das vacas gordas, todos votamos no PT.
Cantávamos loas e saíamos com ramos. "Nunca estivemos tão bem!", enquanto apanhavamos o maná dos céus.
E ficamos descuidados, indolentes, insolentes.
O que fazer, somos assim.

Contudo, na hora de assumirmos as rédeas de nossa própria vida, vemos que, ao igual que naquela antiga cidade árabe de "Dámascusta"; as coisas não são tão bem assim.
E aí, meu amigo, xingamos insolentes e vaiamos escondidos na multidão, conclamamos passeatas, batemos panelas, queimamos ônibus, depredamos edifícios e monumentos à história e ao país.

A fila nos aeroportos nunca foi tão grande.
Nas férias.
Desejamos ir todos a Miami, meca das compras e da civilização. Pois a culpa sempre é de outros, nós somos as vítimas. "Eles fizeram tudo de errado, que se virem!" Enquanto erramos no troco, furamos a fila, e fazemos do levar vantagem um estilo de vida kosher.

De forma alguma estou defendendo o PT, como partido é tão falho e ladino quanto qualquer um de todos os outros. É composto pelo mesmo estofo e tem demonstrado o mesmo discurso proselitista. A ideia, como quase qualquer outro ideal, é boa. A execução... depende da soma de todas as vontades e de uma identidade que recuperamos temporariamente durante o Carnaval e já até perdemos (7x1) no futebol.
Antes sabíamos o valor, hoje discute-se o preço.
Algo sobre o qual não temos mais quase nenhum controle. "Depende de coisas que também não controlamos..." disseram em entrevista recentemente.

Descamisados, sairemos a caçar ursos, da mesma forma que já saímos antes à caça dos marajás, e o resultado será exatamente o mesmo. Os mesmos "Salvadores da Pátria" de sempre, se oferecerão vestais, para o posto na rampa.


E a culpa não será mais nossa.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Escambo, Ganância e Indústria Automobilística


Faz algum tempo, e cada vez mais alto, se escutam notícias como as que seguem na mídia nacional:
  • Em São Paulo, Volks põe 8 mil metalúrgicos em férias coletivas;
  • A General Motors (GM) também mantem 819 metalúrgicos em lay-off na fábrica de São Caetano do Sul (SP) desde novembro do ano passado. E ainda mais 473 metalúrgicos com contratos suspensos na unidade de São José dos Campos (SP), desde março até agosto;
  • Na Mercedes-Benz, são 850 trabalhadores afastados ao todo. A Mercedes tem ainda 100 metalúrgicos em lay-off até o fim de maio na fábrica de Juiz de Fora (MG);
  • A Ford, por usa vez tem 424 metalúrgicos em banco de horas desde 23 de fevereiro, por tempo indeterminado, em São Bernardo do Campo (SP). No fim de março, a montadora demitiu 137 funcionários da unidade Taubaté, após oito meses de lay-off;
  • Na fábrica da Volvo em Curitiba (PR), 1,5 mil trabalhadores estão em bancos de horas desde o dia 24 de abril para adequar a produção à demanda. De acordo com a companhia, eles devem retornar ao trabalho na quarta-feira (6);
  • Na fábrica de caminhões MAN Latin America em Resende (RJ), a carga horária está reduzida em 10% desde dezembro;
  • Nas duas fábricas da Marcopolo em Caxias do Sul (RS), acordo entre sindicato e empresa prevê até seis dias de parada de produção por mês, entre abril e maio;
  • Com a produção de veículos em queda, a Pirelli vai colocar em lay-off por cinco meses, a partir das primeiras semanas de maio, 1,5 mil trabalhadores das quatro fábricas que possui pelo País. Tal número equivale a 12,5% de toda a mão de obra da fabricante de pneus.
Acompanhe-me.
Vamos, por um átimo, fingir que os únicos problemas que assolam o País sejam os expostos acima. Então teriamos uma conta que, por alto nos dá algo em torno de 13,803 trabalhadores em regime de lay-off ou que foram demitidos da segunda metade do ano passado até hoje. E isso, somente nas maiores empresas da indústria automobilística. Os dados das empresas de insumos menores ainda não tenho, e provavelmente, não teremos nunca.


Como já mencionei antes, em outro post deste mesmo blog (Mão Pesada), a indústria automobilística brasileira tem sido beneficiada, e muito, por isenções e descontos de taxas e impostos, várias vezes no decorrer dos últimos anos, com a justificativa de evitar demissões e crises sócio-econômicas que desestabilizariam as instituições democráticas, a sociedade e o "american way of life".
Seria "o diabo a quatro", em outras palavras.

Mais uma chantagem sem-vergonha, onde o trabalhador, na contenda, volta a ser tratado como moeda de troca entre as famosas "forças ocultas". Chantagem sim! Perceba como o automóvel NÃO É artigo de primeira necessidade, ou essencial. Algo como a cultura do tabaco, por exemplo. No entanto, transformamos (virgula, que não fui eu/nós!) a indústria automobilística quase que em monocultura brasileira.


E, como sofremos de uma miopía endêmica, não percebemos a produção (nem quase nada, diga-se de passagem) de forma holística. Achamos que produzir -qualquer coisa- se reduz somente a isso; produzir. Não vemos as intrincadas redes e relações que qualquer (repita comigo: Q-U-A-L-Q-U-E-R) produto ou serviço tece ao seu redor.
Por um lado, em nome dum progresso industrial rápido e virtual, desde os anos 50, o governo investe pesado na indústria automobilística e na sua infraestrutura.
Oba, o Brasil é o 7º maior produtor de carros no mundo!


Vamos por partes; nós não criamos nada.
Temos algumas montadoras de marcas estrangeiras e muitas fábricas menores, fornecedoras de peças para essas montadoras. Entretanto o "carro brasileiro", que por lei, deve ter em torno de 70% de peças fabricadas no Brasil, continua a ser um dos mais caros, e tecnologicamente mais defasados, do mundo.


Ano 2015/Modelo 2016
Segundo reportagem publicada recentemente num semanário local, "Os preços exorbitantes são decorrência de um conjunto de fatores: carga tributária excessiva, gastos elevados com matéria-prima, mão de obra e logística, falta de competitividade, margem de lucro maior do que no exterior, demanda crescente e consumidores dispostos a pagar mais". Ufa, isso desestimularia qualquer um.

Epa, como assim: "consumidores dispostos a pagar mais"?
Eis um dos paradoxos da cultura do "levar vantagem em tudo". Dificilmente haverá uma relação ganha-ganha, nem mesmo um empate empático e gentil.



E, por outro lado, as vantagens concedidas repetidamente, criaram uma bolha que agora está prestes a -como todas as outras bolhas antes dela- explodir na nossa cara. Vejamos, se o governo reduz temporariamente o recolhimento de imposto, digamos o IPI em 7 pontos percentuais, é lógico que aumentará o consumo. Mas, um consumo artificial, temporário enquanto o governo manter essa renúncia fiscal.

As empresas, por seu lado, ao invés de buscar, e propor, soluções proativas para fazer verdadeiramente frente a estes custos e situações, estará muito contente ocupada produzindo e antecipando as vendas a curto prazo. O longo prazo delas é amanhã.

Lembra das aulas básicas de gestão e psicologia comportamental? Diziamos que: "O homem é um sistema aberto, resultado da somatória de (1) sua bagagem hereditária, (2) dos acontecimentos da sua história particular e (3) do meio-ambiente em que vive".
Será então muito fácil explicar porque ele (o homem) ao lembrar (1) o que lhe aconteceu (2) poderá evitar que aconteça de novo (3).
Certo?

No caso das montadoras, errado... Primeiro saturam antecipadamente o mercado e depois, como crianças malcriadas irão fazer birras, jogar a culpa nos outros (entenda-se: no governo, seja lá qual for) e quem vai pagar a conta serão os (des)empregados, e você... e eu.

Dizer que as montadoras estrangeiras poderiam sobreviver sem esses incentivos, mas que a maioria das menores nacionais não, me parece uma temeridade. Monte um carro sem parafusos de roda ou amortecedores, por exemplo. Mesmo a disposição do consumidor de pagar mais seria grandemente arrefecida. As margens de lucro diminuiriam consideravelmente, fechariam-se as portas da burra estatal.
Não seriamos mais o 7º maior produtor de carros do mundo, eu sei.

...
Uma pena.



“A não mobilidade é o caminho natural das metrópoles que optaram por sistemas de transporte sem planejamento ou por políticas que privilegiam o transporte motorizado individual e não investem em redes estruturadoras de transporte público”, afirmou Manoel da Silva Ferreira Filho, presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Metrô (AESMESP).


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Admirável Brasil Novo...

O título deveria ser: "Admirável Brasil Novo, Justo, Certo, Possível..."

Conhecemos inimigos famosos.
Tem Caim e Abel, os Capuletos e Montecchios, Batman e Coringa, árabes e judeus, Holmes e Moriarty, Estados Unidos e o resto do mundo (longa história, conto depois), Tom e Jerry, Comunismo e Democracia (mesmo sendo a mesma coisa com nomes diferentes), Papaléguas e Willy E. Coyote.
Esqueci de alguém?

Todos inimigos declarados uns dos outros ou entre si. Os motivos pouco importam, banais impertinências. Historias à tintas e tempos, motivos para filmes e peças. Mas, isso é introdução, meu tema é bem mais perto ao nosso dia-a-dia.


Das inúmeras duplas antagonistas, é sobre a torcida contrária que vem acontecendo sistematicamente, na mídia do Brasil. Pois há, definitivamente, uma torcida contra qualquer coisa que vá acontecer ou seja proposta pelo governo ou ainda tenha brasileiros no meio.
Assumem, como faz algum tempo acontecia, que todo e qualquer produto nacional tenha que ser invariavelmente de menor qualidade. Discutem que, invariavelmente o trabalhador brasileiro seja sub-adequado, ou mão de obra inferior à sua similar estrangeira. Apesar de ser os mesmos pontos, e alguns dos produtos ser exclusivamente brasileiros, ou originários do Brasil.

Os exemplos mais recentes dessa torcida têm sido desde as eleições, a Copa do Mundo e, mais adiante, as Olimpíadas. Mas esta última ainda está em curso. A torcida esta agindo a pleno vapor. Claro que auxiliada por aqueles capazes de, sem o menor escrúpulo, tirar proveito da situação.
Tem tantas formas disto acontecer, em quase todas as situações normais no pais.
O que chama minha atenção e causa assombro é que essa torcida seja feita principalmente por brasileiros. Tenho ouvido e visto documentado, mais elogios a eventos brasileiros feito por jornalistas estrangeiros do que por seus pares brasileiros.*

A maioria da mídia brasileira conta com que, seja lá o que for, não vai dar certo, não vai funcionar, vai ser um escândalo. E torce para que assim seja. Escândalos vendem semanários, chamam atenção, aumentam os 15 minuto$ de fama.
Vejamos o caso recente das eleições,, onde o partido contrario ganhou, apesar da orquestrada torcida. Por algum motivo ganhou. Devem ser os colaboradores sub-categorizados que elegeram um governo sub-categorizado.

Mas, não é isso o que chamamos Democracia?
Iriamos reclamar por quê? Porque funciona como (teoricamente) deveria funcionar? Desde quando foi instituído o "melhor de três", para eleição?


Ultimamente tenho visto, em várias ocasiões, textos falando em como "somos alvo de chacota" ou então que deveriamos nos "envergonhar", perante a comunidade mundial, por termos um escândalo do tamanho da PetroBrás. Para aqueles menos avisados, que consomem tudo sem antes 'agitar primeiro', o cenário é desolador e muito, muito sombrio.

Mas eu cá, no meu desempregado ócio, acordo as 4h da manhã para pensar bobagens.
E decido compartí-las, o que pode ser ainda pior. Mesmo depois de 42 anos de ter escolhido o Brasil como meu país e ele ter me acolhido como seu habitante. Não nego que tive meus momentos em que cinza era a gradação das cores e até tive cortada a luz do fim do túnel. Ainda não me arrependo da escolha que fiz.
Para começar, vamos chutar o balde, atingir o pau da barraca e sair para apreciar o circo pegar fogo... se possível.

Primeiro; envergonhar o cacete!
Não temos por quê nos envergonhar de nada.
Itália já teve seu "Mani pulite", Inglaterra e França, escândalos sexuais e propinas corporativas de cores variadas, Espanha tem uma infanta às voltas com a justiça, de novo, Japão já nem publica mais suas picaretagens, a China vez por outra, fuzila algum corrupto aqui e ali, Roma, seu banco e pedofilia, Alemanha anda assombrada por seus repaginados velhos fantasmas, os Estados Unidos então nos brindam, de tempos em tempos, com escândalos de alcance mundial (alguém se lembra da última de Wall Street?).
E eles seguem como cavalo em desfile... de cabeça aprumada e olhando de lado.
Pensou o quê?

Vamos aproveitar e pôr a casa em ordem. Eis uma ótima oportunidade.
Mesmo com os desmandos pontuais deste movimento pendular. Carpe diem!
Algumas coisas temos que melhorar, outras temos que eliminar e deixar o aviso plantado e visível na porta: "Cortamos cabelo e pinto".
Entenda quem quiser.


Não adianta pedir as cabeças deste ou aquele, repetiremos outras Salomês, enquanto deixamos as raposas cuidando dos galinheiros candangos. Ampliemos o alcance da nossa visão e percebamos como podemos influenciar nosso entorno. Nós somos o meio-ambiente de alguém!
E, vice-versa.
Entende agora o que é iteração?




* Jornalistas franceses, espanhois, australianos e japoneses desejam que todas as Copas do Mundo sejam no Brasil, por exemplo.



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Leitura recomendada:

"Aprender del Mani Puliti Italiano" de. Publicado em 28/11/2014.

sábado, 28 de junho de 2014

Evolução e Mudança

Tecnologia é ferramenta.
A evolução tecnológica acaba, rápida e sem nenhum constrangimento, com o pragmatismo estático herdado do princípio da Revolução Industrial.

Onde antes viamos processos estratificados e isolados de produção de bens e criação de valor e conhecimento, hoje temos, cada vez mais e mais rápido, interações e iterações focais. O indivíduo isolado como foco de dados. E paradoxalmente, por ser elemento ligado em rede, disseminação e compartilhamento de informação, fantasiada de conhecimento em opiniões.

Entramos de sola, como dizem Sayad e Dimenstein (2002), na "Idade Mídia", abusando enormemente do conceito descrito por ambos. Na reinvenção da comunicação que é só significante, carregada de pouco ou nenhum, significado. Quase sem crítica nenhuma.


Preciso, antes de continuar e acabar esquecendo, fazer uma diferenciação entre significado e valor.
Valor é definido por muitos como tudo aquilo que podemos avaliar, pôr preço. As mais das vezes é tangível, pode ser tocado e visto. Significado, por outro lado, nem sempre é tangível, muitas vezes é altamente subjetivo, mas pode ser sentido, algumas raras vezes visto. Mas, dificilmente podemos avaliar.
Me atrevo a adir que, se podemos comprar, seu valor é pouco.
Feito isso, continuemos...

Como disse antes, a evolução tecnológica nos avassala com software livre, cloud computing, mobilidade, VoIP, portabilidade, Bitcoin, 3D printing, veículos elétricos e energias alternativas. Jason Pearlow, do Tech Boiler, diz que, "cada um deles com forças ideológicas e sociais únicas e ainda uma essência comum a todos: a acessibilidade."

E ainda desenvolve a ideia de que esta acessibilidade não é de forma alguma um movimento social ligado ao melhoramento da sociedade como um todo. Por definição seria o desejo pessoal e auto-centrado de não gastar mais. Ou, em termos técnicos, os avanços rápidos da tecnologia têm feito com que nossa percepção do valor das coisas diminua de tal forma que muitos bens e serviços desvalorizaram bem abaixo do que as pessoas estão dispostas a pagar por eles. E que esta situação nunca antes tinha acontecido na história da humanidade.
Nunca antes a tecnologia havia patrocinado a parcimônia.


Se ele não sabe, muito menos eu, diletante extra-oficioso, quando tudo isto começou. Mas, suspeita que tenha sido no final do anos 90, quando do aparecimento do movimento do software livre. Da minha parte, acredito que tenha sido imbuído em nós bem, bem antes, quando ainda tínhamos que nos virar sozinhos como unidades familiares únicas. Mas, isso se perde diluído no tempo e, se alguém escuta, nem presta atenção. Doutra vez, divago nefelibatamente sobre esses assuntos, parece que rezo em latím frente ao Gorrochategui s.j..

E então vieram as crises e as recessões, das quais muitas empresas ainda não acabaram de sair, algumas nem ao menos entenderam o que foi que aconteceu, e criaram uma relutância ao gasto e uma desvalorização de bens e serviços numa escala mundial.

Mesmo que a adoção do software livre não tenha sido aquela panaceia que todos esperavam, ainda é o melhor incentivo para sua adoção e uso. É gráti$!

Por que gastar com servidores caros e complicados quando podemos simplesmente implementar a nuvem (cloud computing)? Com o benefício adicional de não mais precisar de colaboradores especializados e todos os custos embutidos na sua contratação. Reduzir os custos de telefonia e comunicação aproveitando as características do VoIP. Remanejar processos e logísticas aproveitando as redes sociais e automação oferecida em portais do governo.

Mas, e ao mesmo tempo em que as empresas mostram relutância em gastar, há uma substituição de gente (que é considerada barata) por softwares que são, ultimadamente: baratos.


Paradoxalmente, todos estes processos são desenvolvidos por gente, para ser operado por gente, para influenciar gente a fazer coisas que só gente pode fazer: consumir produtos... de gente.
Pode parecer ingênuo ou infantil mas, não está faltando senso nisto tudo? Podemos reduzir todos os custos de produção a sua face mais simples, mas continuaremos na ágora antiga. Onde a tecnologia continua sendo desenvolvida, como antigamente, para ser ferramenta. Um meio, nunca um fim em si mesma.

Nós, gente, continuamos sendo uns o limite dos outros. Como estes limites são transpostos, ultrapassados, e veremos ferramentas em ação.
Tecnologia é ferramenta... já lhes disse isso antes?





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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Estudo de Caso: Transporte Urbano em Curitiba

Pode se dizer que o transporte coletivo na cidade de Curitiba começou efetivamente nos anos finais do século XIX. Mais precisamente no ano de 1895, quando da promulgação do primeiro Código de Posturas que regulamentava os aspectos de conduta e higiene. A partir dai racionaliza-se o uso do solo curitibano e, em 1910, as ruas do centro eram pavimentadas e os bondes puxados por mulas, foram substituídos por bondes de tração elétrica vindos da França.

Na década de 40, já na metade do século XX, é elaborado um plano amplo para uma nova ordenação do espaço urbano da cidade. Plano este idealizado pelo urbanista e arquiteto francês Alfredo Agache, um dos fundadores da Sociedade Francesa de Urbanismo. Desse plano ainda, resultaram as primeiras grandes avenidas da metrópole, como a Visconde de Guarapuava, a Marechal Floriano Peixoto e a Sete de Setembro. Indicava também uma área para o Centro Cívico, que somente seria iniciado em 1952, uma década depois.


Em 1955 surgiu o primeiro plano de transporte coletivo que divide a cidade em áreas de concessão para empresas privadas de transporte. Quase como acontece com o transporte em São Paulo que é dividido em quatro (4) áreas coloridas, cada uma referindo-se a setores geográficos.

Foi só nos anos 60, bem depois da primeira promulgação de planos regulatórios que, urbanistas da Universidade Federal do Paraná encaminharam à Prefeitura uma proposta de plano diretor para a cidade. Depois de amplo debate (mormente político) foi aprovado, mas iniciado uma década depois.

Na gestão do Prefeito e arquiteto Sr. Jaime Lerner, quando Curitiba assume uma nova condição metropolitana e passa a ser modelo para o Brasil e exemplo mundial, é que foram instituídas as características modernas da cidade, entre elas: as ruas exclusivas para pedestres, a integração do transporte coletivo e o emprego de canaletas exclusivas para os ônibus. Foi aqui, em 1971, onde pela primeira vez no Brasil, se fechou uma rua ao trânsito de veículos e apareceram os calçadões. O trecho hoje se chama Rua das Flores.

O sistema de transporte coletivo de Curitiba começou seguindo as bases traçadas pelo projeto do Plano Diretor da Cidade. E também, às ideias do seu idealizador (Lerner) de que a chave consistiria em não ter meios de transporte competindo no mesmo espaço. Semelhante a maioria das outras cidades brasileiras, Curitiba tinha seu sistema de transporte coletivo composto por linhas diametrais ou de ligação bairro-centro. Isso iria mudar com a integração dos sistemas.


Este novo sistema iniciou em 1974. Sendo criados eixos ligados ao centro da cidade. Entram em operação as linhas expressas e as alimentadoras e sua ligação acontece em terminais. Os ônibus eram projetados para carregar 100 pessoas e esses tinham comunicação visual especial e cores diferenciadas por linhas (expressa ou alimentadora). Começou transportando mais de 54 mil passageiros /dia, cerca de 8% da demanda total.

O sistema foi ampliado ainda mais em 1977, três anos apenas, após sua implantação. E passou a transportar 32% da demanda total da cidade. Dois anos depois, em 1979, o sistema de transporte incorporou as linhas interbairros e passou a responder por 34% da demanda por transporte coletivo.


Com a implantação dos eixos Leste-Oeste, em 1980, a cidade concluía sua Rede Integrada de Transporte – RIT.  Esta RIT foi consolidada pela adoção da tarifa única, com os percursos mais curtos subsidiando os mais longos. Esta tarifa única permitia os passageiros efetua trajetos mais longos com o pagamento de uma única tarifa, fazendo transbordo nos terminais de integração ou mais tarde, das estações tubo. Nesta época a URBS assume a gerência do sistema como concessionária das linhas e as empresas privadas operam somente como permissionárias.
A remuneração, diga-se de passagem, passa a ser feita por quilômetro rodado e não mais por passageiro.

Em 1991, continuando a aprimoração do RIT, são incorporadas as Linhas Diretas (“Ligeirinhos”), destinados a suprir demandas pontuais, de embarque-desembarque nas “Estações Tubo”, pagamento antecipado e uso de ônibus desenhados especialmente para operar como um metrô de superfície, sobre rodas.

No ano seguinte entram em operação os “Biarticulados”, nas linhas expressas com uma capacidade de 270 passageiros. A evolução do RIT continua até que no ano de 1996, por delegação do Governo do Estado a URBS passa a exercer o controle total da região metropolitana, permitindo que a Rede de transportes de Curitiba se integre.


O Sistema de Transporte formado pelas linhas expressas, alimentadoras, interbairros, diretas, é complementado por outros tipos de serviços:
  • Convencionais – que ligam os bairros e municípios vizinhos ao centro;
  • Circular Centro – operada por micro-ônibus, circunda o centro tradicional;
  • Ensino especial – destinada ao atendimento de escolares, portadores de necessidades especiais;
  • Interhospitais – faz a ligação entre os diversos hospitais;
  • Turismo – faz a ligação entre os pontos de atração turística e os parques da cidade

Considerações Finais

A cidade de Curitiba é a 8ª (oitava) cidade mais populosa e a mais rica do Brasil segundo dados do último censo do IBGE. Tem um pouco mais de 1.84 milhões de habitantes. Se comparada com a cidade de São Paulo com seus 11.244.369 habitantes, ela é minúscula. Como todas as outras cidades da Federação. No entanto o que a diferencia das outras é seu sistema de transporte coletivo, desenvolvido de tal maneira racional e integrada, que hoje consegue ser modelo exportado para outras cidades do mundo.

A logística trata, entre outras coisas, do transporte racional e econômico de bens (tanto insumos quanto produtos acabados). Mas ninguém diz que ela não poderia lidar, principalmente se importar, com o transporte de passageiros. Passageiros que se transformam na principal força como colaboradores da indústria e dos serviços. O fato do transporte ser, um dos principais fluxos logísticos e, no caso específico da cidade de Curitiba, uma referência mundial, esta redução de custos se apresenta como uma das primeiras vantagens obtidas.


Reduzir custos, tanto para o usuário quanto para a cidade, que reduz o volume de trânsito de veículos e todos os outros custos a ele adicionados, é o principal resultado de um fluxo, um sistema de transportes bem dimensionado. Logística é o “dimensionamento correto” deste fluxo. Isso é o que podemos ver diariamente na cidade de Curitiba e advém muito de seu sistema de transporte coletivo.

O que começou como uma análise comparativa foi, rapidamente, assumindo contornos de análise qualitativa. Mesmo a cidade de Curitiba, o alvo em questão, ser uma fração se comparada com a cidade de São Paulo, o sistema de transporte coletivo difere daquele em uso em São Paulo.


Ele funciona, e não se poderá negar que seus benefícios se espelham pela cidade toda. Não há muitas distâncias que não sejam cobertas pela malha do transporte coletivo. E isso se traduz num menor trânsito veicular particular diário como método de comutação para/e do local de trabalho. Apesar que, ultimamente, vem ocorrendo um aumento no tráfego de veículos particulares nas horas de pico.

Como modelo do serviço logístico oferecido à população pelas autoridades da cidade, ele quase que atinge seu objetivo. Quase atinge seu objetivo porque a cidade, como organismo vivo, estará sempre em crescimento. Tanto em número de habitantes quanto em área de extensão. E o sistema sempre estará tentando atingir todas estas extensões.



Referências

-- URBS - Mapa do RIT.



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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Contos de Fadas Hi-Tech

Entramos no mundo de contos de fadas... fadas eletrônicas.
Esses entes tecnológicos podem (quase) tudo. É só ligar (on) o gadget que ele nunca mais desliga (off). Ficamos reféns de uma identidade virtual imaginada por nós mesmos. Enrolados numa rede pegajosa que se replica a cada ideia nova de mercado. Ou a cada iteração com outros entes iguais a si mesmos. Mas, que como outras criaturas, não mais obedece ao seu criador.


Entramos num ambiente onde há uma aceleração da irrelevância. Transformamos a impaciência em virtude. Soluções rápidas e relacionamentos efêmeros, curtir e compartilhar substituem, sem méritos nem julgamentos, o ser e estar. Encantados com o ambiente idealizado seguimos como ratos a música, sem prestarmos mais atenção ao caminho. Até quando os aparelhos, as fadas ainda na vitrine, escolherão seu comprador por proximidade. Identificando-o, por wi-fi e análise booleana prévia, quem pode ou não, adquirir a tecnologia oferecida. E se oferecendo a este ou aquele transeunte. Consumo seletivo onde o produto escolherá o comprador. Por créditos, nunca por méritos.


Do lado de cá, veremos somente o que essa análise nos ofereça. E seremos impenetráveis à diferença. Verdadeiros zumbis estratificados...
Poucos Amish escaparão... não haverá existência real sem a virtual. Se não tiveres avatar, para todos os efeitos, não existes.
Educação, papel... para quê? Podemos estudar no transporte, escrever no tablet, armazenar na nuvem.
Alma?
Será que está classificada nos bancos de dados do Google?
Será que abrimos uma janela, um canal ou caminho, por onde entramos em comunicação com... alguém, no outro lado?
E estamos usando nosso código para interpretar as mensagens que recebemos em sinais para as quais não havemos tradução?
Será que toda essa interação digital não poderia significar: "olá, tem alguém ai?"


Ou, como Gandhi suspeitava, estaremos a cometer um outro "Himalayan blunder"?


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sábado, 10 de maio de 2014

Deus, segundo Baruch Spinoza


Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: -“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.
“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí, é onde eu vivo e aí, expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar por tua vida miserável: eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho…, não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir.Tu vais me dizer como fazer meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.
Se eu te fiz, eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única coisa que há aqui e agora, e a única que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre.Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse, como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste?… O que aprendeste?…
Pára de crer em mim- crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes especial, apreciado?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… Aí é que estou, batendo dentro de ti.
(Baruch Spinoza.)


As sábias palavras são de Baruch Spinoza – nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em plenos século XVII. Continuam verdadeiras e atuais até hoje…
Saiba mais: Mundo de Gaya

sábado, 18 de agosto de 2012

Ócios

Se existem as condições para um novo mercado -seguindo a tese do Domenico De Masi- porque continuamos trabalhando cada vez mais, produzindo cada vez mais e aproveitamos cada vez menos?
Deveriamos pensar -e tentar aplicar- mais um novo projeto de vida e menos um ajuste contábil!!


Veja os paradigmas de De Masi em: http://www.youtube.com/watch?v=dQVVgqiV-lc

quarta-feira, 6 de junho de 2012

É óbvio, não é?


Estava pensando em como as coisas mais óbvias são, quase sempre, as mais difíceis de explicar. Ou pior: de perceber!

As vezes dá quase para perceber os padrões coloridos do "desenvolvimento humano" (isso mesmo, mas veja onde estamos). E como esses padrões se repetem por iteração (isso mesmo, de novo) em diferentes niveis. Como deveria ser; teoricamente.
Mas, ninguem está mais interessado.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Depressão segundo Kehl

“A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI.
Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. Se o tédio, o spleen, o luto e outras formas de abatimento são malvistos no mundo atual, os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber.”


Maria Rita Kehl em passagem de seu O tempo e o cão: a atualidade das depressões (São Paulo: Boitempo, 2009, p.22).