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sábado, 24 de janeiro de 2015

É o Petróleo, Estúpido!

O post a seguir não é original meu. Quem me dera poder escrever com tanta simplicidade um tema tão complicado. No final identifico o seu autor, autodeclarado: "avô aposentado". Mas, ele muito bem declara elementos de um imbroglio que consome o tempo dos maiores jornais e a mídia em geral. Uns contra e outros também, que afinal aos berros, não explicam nada. Espero poder contribuir para a disseminação de explicações objetivas e sem tinturas partidárias.
Leiam:


A midia, sempre na procura de uma crise, aproveita o caso de corrupção ocorrido na Petrobrás, para aplicar a máxima do Velho Guerreiro: vim para confundir e não para explicar.
Num momento em que o mercado internacional de petróleo também é vítima de uma ação, nada técnica ou econômica, está formado o ambiente ideal para que todos sejam vítimas da desinformação.
Sem pretender ter a verdade, mas com respaldo de algumas décadas de trabalho no mundo do petróleo, procurei grupar a atual questão nos dois campos onde é possível entender o que acontece: o campo técnico-econômico e o campo político-financeiro.

Campo técnico-econômico
Vamos iniciar trabalhando o Quadro que se segue com as reservas de petróleo em países chaves. Os dados numéricos estão em bilhões de barris, com arredondamento estatístico para facilitar a percepção.


Em 1980 ocorreu o “oil glut”. Após diversos aumentos de preço, desde o final dos anos 1960 até aquele ano, os preços se estabilizaram e a produção, com os programas de conservação de energia e substituição de energéticos, deixou de ser pressionada pela demanda. Falava-se, também, de um previsível fim da era do petróleo para os próximos cinquenta anos. Como se vê no Quadro, as reservas de petróleo aumentaram significativamente. Apenas mudou o peso dos países detentores destas reservas. Vamos analisar mais detalhadamente o Quadro.

Quando a produção é mantida nos mesmos patamares, as reservas crescem por dois motivos: houve novas descobertas ou melhorou-se o fator de recuperação dos reservatórios. Como é sabido, nunca se retira todo o óleo/gás existente nos reservatórios. Somente utilizando a energia natural dos reservatórios pode-se retirar 20% a 30%, dependendo do que se chama sistema rocha-fluido. Mas com métodos de recuperação pode-se retirar até 60% do petróleo existente. Seria equivalente a uma descoberta do mesmo porte. Assim as oscilações positivas, quando pouco expressivas, e, principalmente, a manutenção das reservas devem ser atribuídas à melhoria do fator de recuperação.

As descobertas realmente importantes, nestas últimas duas décadas e meia, ocorreram na Venezuela, no Irã e no pré-sal do Brasil, onde ainda estão sendo apropriadas as reservas, mas se estima iguais ou superiores a 60 bilhões de barris. Este fato redesenha a geopolítica do petróleo e coloca os países da União Européia e os Estados Unidos frente a países que não se subordinam aos seus interesses: Venezuela, Irã, Rússia e Brasil. Poderíamos dizer que se está diante de uma situação indesejável, do ponto de vista dos Impérios Coloniais. Não assombra, consequentemente, que várias medidas em diversos níveis e diversificadas áreas estejam sendo adotadas para modificar esta situação. Mais ainda, quando o petróleo é e continuará sendo até, ao menos, o final deste século, a mais barata e comercializável fonte de energia e um insumo indispensável para ampla área industrial, com a tecnologia hoje disponível.

Vejamos o preço. Como produto finito, o preço do petróleo, além do custo de produção, agrega um “valor de reposição”, ou seja, o que se terá ao fim da reserva explotada. Também fazem parte do preço os impostos, os encargos da contratação da área e o lucro. Tomemos a área que tem, provavelmente, o menor custo de produção: a península arábica. Ali estão as produções da Arábia Saudita, do Kuwait, dos Emiratos Árabes, do Qatar e do Iraque. São campos antigos, mas, se observarmos o Quadro anterior, notaremos que se tem feito um grande esforço na elevação do fator de recuperação dos reservatórios. Assim, podemos estabelecer USD 10 por barril. Mas temos que agregar o custo de reposição. Vamos pegar um valor que inclua áreas ainda prospectáveis do Planeta: costa ocidental da África, do Golfo da Guiné ao sul deste, a Sibéria Russa, o Mar da China, a Amazônia Peruana e o pré-sal brasileiro. Posso avaliar um custo médio de USD 30 por barril para confirmação da reserva. Finalmente os demais custos e o lucro corresponderiam a uns USD 20, o que parece bastante proporcional e razoável. Temos, por conseguinte, que o preço mínimo de um barril de petróleo seria de USD 60, o que confere com os menores valores que ele atingiu neste último mês.

Vamos tratar de outro aspecto técnico-econômico. O universo empresarial do petróleo. Se as majors e algumas estatais tem maior visibilidade, elas trabalham com uma enorme gama de prestadoras de serviço, tais como: perfuração e intervenção em poços, sísmicas e outros métodos geofísicos de levantamento e processamento de dados, laboratórios de análises geológicas, serviços de apoio e de deslocamento de unidades de perfuração e mais um grande número de companhias de diversos portes, mas detentoras de uma tecnologia cara e especializada. Quando a atividade petroleira se retrai, estas empresas sofrem muito pois se forem desmobilizadas provavelmente deixarão de existir e se continuarem em funcionamento engulirão sua reserva econômico-financeira. Situação ainda mais aflitiva se considerarmos que quase todas estão nos países ocidentais desenvolvidos que passam por uma dificílima situação econômica.

Finalmente uma breve consideração sobre os shale oil&gas.
A produção deste xisto oferece muitos problemas ambientais, como a contaminação dos aquíferos, econômicos, em média são necessários 10 poços onde bastaria um para reservatórios convencionais, e a duração de uma reserva é breve – a literatura estima que um campo de shale oil&gas tenha, em dois anos e meio, produzido mais de 80% de seu potencial explorável, ficando os restantes 20% para um período igual ou superior a 10 anos. Assim, não se pode considerar que as reservas canadenses e norte-americanas de xisto estejam alterando o mundo do petróleo. A China também detém reservas de xisto, mas está preferindo comprar petróleo convencional no mercado, principalmente com os atuais preços baixos.

Campo político-financeiro
As guerras frias e quentes desencadeadas pelos EUA neste novo século retiraram do mercado produtor e das atividades exploratórias, no mínimo, muitas centenas de bilhões de dólares, além de reduzirem a produção de importantes reservas como da Líbia, do Iraque, do Irã e, agora, da Rússia. Obviamente estas ações justificariam a elevação do preço do barril, ao invés de sua redução. Mesmo a retração econômica dos EUA e da Europa não chegariam a modificações no preço, principalmente num forte inverno, a não ser para majorá-lo. A queda do preço do barril é, tão somente, política e os prejuízos dela decorrente me fazem pensar que não durarão por mais de um semestre. Do lado norte-americano é uma pressão adicional à Rússia e ao Irã, e uma tentativa de se apropiar das reservas venezuelanas e do pré-sal brasileiro. Do lado saudita, a disputa regional e religiosa da sunita Arábia Saudita com o xiita Irã. Não posso deixar de chamar a atenção para o non sense saudita-norte-americano que de um lado financiam o Estado Islâmico – o califado do século XXI – com capitais da Arábia Saudita e por outro lhe movem guerra com recursos norte-americanos. Como diria o personagem de Jô Soares: 'chose de loque'.
Há outras variáveis nesta questão mas fogem ao escopo destas considerações.

Outra questão para embaralhar o entendimento é o preço das ações.
Vejamos um novo Quadro que retrata os preços das ações na Bolsa de Nova York de companhias integradas de petróleo, nos últimos 30 dias, valores em USD 1,00, variação em percentagem.


Veja que empresas sólidas, com enorme tradição no mercado, como a Shell, sofreram maior variação do que empresas com ativos muito menores e reservas pequenas como a Chevron. No meu juízo há o fator do conhecimento da empresa nacional frente a estrangeira e o aspecto altamente importante da especulação, que envolve todo mercado financeiro, definindo este indicador. Assim, atribuir à Petrobrás, isolada do mercado, por motivos sensacionalistas a queda do preço é outro fator de desinformação. Isto para não citar, o que não pude comprovar, que um dos maiores especuladores mundiais, Georgy Soros, teria dobrado a posição de seu fundo em ações da Petrobrás.

PETROBRÁS
Chegamos à Petrobrás. Antes de analisar a situação atual, gostaria de contar um fato histórico recentemente reavivado pelo jornalista José Augusto Ribeiro. Este fato foi narrado pelo ex-senador, atual vice-governador, Francisco Dornelles. Seu pai General Mozart Dornelles era Subchefe do Gabinete Militar de Getúlio Vargas, em 1954. O maior empresário da midia, dono dos dois únicos canais de televisão no Brasil, era Assis Chateaubriand (Chatô). Ele colocou seus canais de TV à disposição de Carlos Lacerda que toda noite perorava agressões a Getúlio e pedia sua renúncia. General Mozart procurou Chatô, usando seu bom relacionamento com o empresário, sem que Vargas soubesse, e perguntou qual a razão de tanta crueldade. Chateaubriand não dissimulou suas razões: “Mozart, eu adoro o Presidente. Basta ele desistir da Petrobrás e eu tiro o Carlos Lacerda e entrego a televisão a quem o Presidente quiser, para fazer a defesa do governo”. Chocado, o General foi a Tancredo Neves, seu cunhado e Ministro da Justiça, e relatou o episódio. O desfecho todos sabemos.

A Petrobrás, como aconteceu com muitas empresas, cito apenas as de meu conhecimento pessoal: Elf, francesa, e IBM, norte-americana, teve a infelicidade de ter um Diretor sem escrúpulos morais, mas suficientemente esperto para se proteger envolvendo outras pessoas da própria empresa, empreiteiros e políticos. Pensava criar uma barreira de impunidade. Uma operação policial que envolvia lavagem de dinheiro acabou por chegar a ele e desmontar seu esquema. A midia, em seu afã de desinformar, procurou associar este fato policial à compra da Refinaria em Pasadena (EUA), ao saudável endividamento da Empresa, ao preço de suas ações nas Bolsas e ao oportunismo de detentores de ADRs em mover ação contra a Petrobrás. Vamos começar pelas ADRs. Faria muito bem o órgão público que venha tratar desta questão exigir a relação nominal dos detentores das ADRs. Afinal é lícito saber quem está movendo uma ação contra você. Neste conhecimento serão sem dúvida identificados brasileiros que não terão como explicar este investimento no exterior, cometendo ou evasão fiscal ou remessa ilícita de dinheiro, se não houver fato mais grave. É dado com sensacionalismo um fato por demais conhecido por todos que se interessam pelo mercado financeiro internacional. O Estado de Nevada, como diz a máxima, tem mais empresas do que habitantes, pelas facilidades, custo e garantia que dá a estrangeiros que abrem empresa para especular ou mesmo investir nos Estados Unidos. Dizer que encontrou o dinheiro da Lava Jato deveria acrescentar da Lista de Furnas, da Compra da Reeleição, da Pasta Rosa, dos Trens e Metro de São Paulo, do Maluf etc etc etc.

É óbvio que o desvio de dinheiro e o custo mais elevado provocado pela ação do senhor Paulo Roberto Costa e, possivelmente, por sua auxiliar Venina Fonseca entre outros exijam uma aferição mais profunda das contas da Petrobrás. Isto é o correto. O tempo que isto levará depende da profundidade do estudo e das decisões judiciais que venham a ser tomadas. Sem dúvida gera um ambiente de incertezas na contabilidade da companhia, mas não é um desastre como os da BP ou da Exxon. O ativo mais importante de uma empresa de petróleo é sua reserva e seu lucro vem da produção, ambos em ascensão atualmente. Pessoalmente estou aproveitando a baixa do preço para comprar ações da Petrobrás.

Fica uma lição que, infelizmente sou obrigado a reconhecer, parece que a Petrobrás não aprendeu completamente foi designar a advogada Ellen Gracie, ex-OGX, ex-STF, para a equipe de “compliance”. Meu modesto entendimento aconselharia a fazer uma profunda mudança na estrutura organizacional da Petrobrás, herança do período FHC, sob a Presidência do francês Henri Philippe Reichstul, de triste memória. Este modelo facilita ações delitosas, como a que estamos conhecendo, desarticula ações que deveriam estar sob uma única responsabilidade e aumenta o custo administrativo. Quando foi implementada objetivava fracionar e vender por partes a companhia.
Não creio que este objetivo prevaleça.

Finalmente o desenvolvimento do pré-sal. Quando você encontra um reservatório, os bancos não se furtam em financiar o que chamamos desenvolvimento do campo, pois tem a reserva como garantia. Este financiamento gera um fluxo de caixa com os preços previsíveis do petróleo. O orçamento da Chevron para 2014 foi feito com o barril a USD 110. É óbvio que, mantidos os preços atuais, o que repito não acredito, a Petrobrás precisará rever todos seus planos de desenvolvimento dos campos. Possivelmente alguns não serão econômicos com o barril de USD 60. Mas é isto que o planejamento da Petrobrás já estará fazendo: novos cenários, novos fluxos, novas taxas de atratividade a serem apresentados para decisão colegiada da Diretoria Executiva da Companhia. Isto já ocorreu em 1980 e em outras oportunidades. Toda empresa de petróleo está fazendo o mesmo, com toda certeza.
Nada de escândalo midiático, nem torcida contra o Brasil.


(Autor)
Pedro Augusto Pinho, avô aposentado




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sábado, 10 de janeiro de 2015

Sais de Prata

Encapsulado em gelatina inerte, sais de prata fotossensíveis, fixadas em celulose formavam a base do documento chamado fotografia.

Modernamente, células fotossensíveis traduzem eletronicamente o que antes era fotoquímica.
Um jogo simples de luz e sombras capaz de, pelo olhar do artista, contar histórias alegres ou tristes, curtas ou longas. Surpreendentes como a luz de cada novo dia.

Trafegando cansado de volta do hospital, desta vez como passageiro no carro da minha filha, pude desligar do trânsito caótico e, ao mesmo tempo, prestar atenção no caminho. Como se fosse a primeira vez que visse esses 'umbigos' da cidade.

É estranho perceber como a cidade assume uma melodia e harmonia diferentes quando guiados pelos outros. Pude ver, pela segunda vez criança, lugares que, até faz pouco, eram ocupados por obstáculos à locomoção. Ou, como deslocamentos sem foco à periferia do olhar. Descobrir, como exercício de fotografia, espaços cinzas compostos por luz, cores e tecituras orgânicas ou não.

Antes que esqueça, terei que voltar, usando outro tempo, e fotografar, ainda apropriado daquele olhar diferente. Tenho que sair e rever, captar, as imagens que minha filha me brindou com sua carona de carro.
Separá-las, organizá-las e mostrá-las a seguir:














quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?!

Em resposta a artigo do mesmo nome, comecei a escrever este comentário que de tão cumprido acabou virando post. Valia a pena fazê-lo. A discussão ainda vai longe, tem muito o que ser dito.

As escolas, como as conhecemos hoje em dia, elas próprias, seguem "escolas" (de pensamentos e filosofias) pedagógicas. Trilham, por assim dizer, caminhos impostos de escopos conhecidos, de ideologias pré-estabelecidas. A verdade conhecida, da qual as bibliotecas estão repletas. O conhecimento explícito, fixo. 

Sem sustos.

A criatividade e a inovação, por definição são o desconhecido. Queremos ensinar para verdades desconhecidas? Teriamos antes, que quebrar paradigmas seculares, entre o ensinado e aprendido, modos testados (formas e atitudes). Acolher o processo criativo do racionalismo de Spinoza ao romantismo Nietzcheano. E mostrar como não acontecem cataclismas ao criar pontes entre fatos e valores. Paradoxalmente, de verdades desconhecidas as bibliotecas estão repletas, de sementes em forma de informação.
Com sustos... muitos.


Na escola, os professores serão os guias facilitadores. Eles deverão saber e instigarão ao uso da ferramenta que permitirá abrir as portas para grandes criações. Antes de tecnologias e muletas extra-corpos, o cérebro como instrumento básico e principal de qualquer questionamento criativo. Longe da linha de produção seriada, a possibilidade da criação. Nem precisava ser genial, seria única e a partir dela, a genialidade seria possível.

Conseguiria-se assim uma quebra de padrões e hierarquias. O indivíduo como parte de um elemento coletivo maior de unidades únicas. A aspiração comum sendo o progresso e desenvolvimento de cada um desses coletivos, aproveitando as diferenças como molas construtoras. As crianças são naturalmente mais abertas à criatividade. Sua fé infantil não teme a aprendizagem quando apresentada com habilidade e sabedoria. Ao reconhecer, o outro, como igual e com o igual fazer parceria no desenvolvimento de ideias e resultados, o respeito e a troca se tornam muito mais fáceis. A nossa visão de mundo se alarga ao incorporar a visão do "outro" e o mundo visto ser nosso. Os antigos pedestais que criavam hierarquia na escola seriam extintos quando todos se descobrissem aprendizes.
Os sustos se transformam em surpresas.

É esta flexibilidade conseguida com o aprendizado do livre pensar, o questionamento fractal. A escola pode entrar como porto de partida para essa grande aventura.


Qual a mediação possível?

É difícil pensar e falar a respeito de individualidades se o fizermos dentro do padrões comuns desta nossa massificada sociedade industrial. Seguindo os padrões atuais tudo deve estar dentro de normas e conformidades, pesos e medidas de controle e qualidade, para ser usado -consumido- por individualidades únicas. Diferentes todas entre si.
Um contra-senso que ninguém, a não ser criativos, discutem. 

Não haveria mais as amarras de temor, pois aceitar, somar e compartilhar o que de novo vier de todas as direções possíveis seria o natural. Ensinaria-se desde tenra infância. Perceber, usando associações gestálticas (sic), o tempo do outro e ir ao seu encontro para ampliar o horizonte de todos deixará de ser o grande desafio. A descoberta de significados em coisas e fenômenos que a maioria considera certos. Estáticos.
E todos os dias as condições certas para a frutificação do novo.





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terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Água, os Caras, e... nós

Odeio dar uma de Cassandra, já disse em um outro post neste mesmo blog.
Faz alguns anos brincava que, em seguindo a carência do recurso água no mundo, chegaria o dia em que o mapa do Brasil acabaria um pouco além de Aquidauana-MS. Dali para frente haveria uma "internacionalização" dos recursos geográficos todos. Chegou a ser até uma das propostas de um dos gestores do Fundo Monetário Internacional na época em que estávamos pior do que hoje. Ainda tínhamos que ouvir calados todo tipo de bestialidade que tecnocratas de passagem ousassem dizer.

Várias gerações brasileiras viveram à sombra do engano de que a água no Brasil nunca iria acabar. Engano reforçado pela pouca noção que as afirmações vindas, de quase todos os lados, de que o Brasil tinha o maior índice hídrico do mundo, lhes forneciam. E, principalmente, a inação do governo em relação à preservação, ao bom uso e racionalização do consumo do recurso. Vivíamos junto a presença do Rio-Mar, um pantanal sem fim, rios caudalosos, chuvas e umidade contínuas.
Água por todo lado.
Poderíamos até nascer guelras!



Dadas as condições certas, muitos elementos sem relação alguma aparente, uns com os outros, somados criam "ambientes" cuja solução é lenta e desconfortável. A recuperação dos índices hídricos a níveis anteriores a 2k será um destes ambientes. Aqui teremos a real noção do que "rede de redes" significa. Assim como 3 pontos percentuais podem significar pouco mais de 3 milhões de almas.
Me pergunto, e quando chover de novo, será que vai inundar a cidade? Voltarão os desmoronamentos?
De novo?

E, como desgraça pouca é bobagem, a eletricidade é gerada a partir de hidroelétricas, movidas a água de rio.... Preciso continuar?


Agora, uma das regiões mais industrializadas e densamente povoada do país passa por uma estiagem prolongada e amostra de falta de gestão previdente do recurso água. São Paulo, capital do estado de mesmo nome, hoje raciona e consome suas últimas reservas do "inacabável" recurso. Enquanto o governo estadual informa que não há racionamento, as torneiras paulistanas suspiram que a água acabou.

No rol das prioridades de um dos governos mais longos do estado, a gestão e previdência do recurso foi relegada a menor papel. Simples coadjuvante ante prioridades politicas e partidárias. O partido antes do povo representado por ele.



Paradoxalmente, esse mesmo povo reelege, para novo mandato, aqueles mesmos que até agora não sentiram necessidade ou vontade de zelar por ele. Ante uma máquina propagandista hipnotizante bateu ponto contra si próprio. Agora, e contra seus filhos depois, pois assim que as chuvas voltarem, se voltarem no volume necessário, para preencher cursos e reservatórios, o pobrema voltará a ser "do governo" (do federal, no caso). E nada mais será exigido nem feito.

Os milagreiros de plantão terão feito milagre$ e os políticos farão campanha adjudicando-se mais essa façanha: a de atrave$$ar leitos secos e chegar à outra margem encharcados!

Por outro lado, a democracia no Brasil, teoricamente, segue o esquema usual dos três corpos trabalhando em conjunto: Executivo, Legislativo e Judiciário. Todos três representando a vontade coletiva, soma de cada um de nós, o povo.
A cartilha básica da "Democracia e Você - Introdução à cidadania".
Acabamos de passar por uma eleição de representantes para o Executivo que mostrou uma divisão, quase igual de vontades antagônicas. Colorações históricas, mal-entendidos e pior apreendidos de situações politicas. Poucas vezes antes na história republicana brasileira tinha acontecido de haver tal cisma.



As repercussões ainda se fazem sentir após varias semanas do pleito eleitoral terminado. Inconformados com o resultado, elementos vão à mídia e às redes sociais ventilar suas idéias conspiratórias e conclamar prosélitos e incautos para reverter o resultado. Alguns chegam ao ponto de exigir o concurso das forças armadas num claro retrocesso histórico e cívico, passando por alto, e ao mesmo tempo ignorando, o preço pago da última vez que tal aconteceu. Acreditam ser este, um preço menor a pagar, frente a uma eventual guinada "bolivariana", orquestrada por partidos ditos "à esquerda de quem entra".

Somos culpados da nossa própria desgraça. Como sociedade permitimos que nosso destino fosse ditado por pouco mais que sicários, que - uma vez eleitos - pensam somente no "primeiro eu".
Auxiliados por uma mídia sectária, parcial ou omissa, dependendo das conveniências do momento.
Nos isentamos de qualquer responsabilidade e, tempos depois, fazemos passeata com as caras pintadas ou encapuzados black-blocs. Anônimos todos. Vamos atrás de descontos em passagens quando o que queremos, e realmente precisamos, fica escondido com medo em casa.


Individualmente nos repetimos: "não é culpa minha", como mantra. Agradecemos o calendário que ganhamos de brinde no banco e evitamos, ativamente, participar. Enquanto o sistema, diligentemente criado por nós mesmos, nos repete: "não reaja, qualquer resistência será inútil".





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Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Veja em maio de 2008.
Sobre a "internacionalização" da Amazônia, na Wikipédia
Significado de Democracia na Significados.com.br
Significado de Revolução Bolivariana no Wikipédia

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Fera Neném

"Respaldada por mais de 54,5 milhões de eleitores a Presidenta Dilma Rousseff..." começava o comentarista televisivo  sua curta análise sobre a nova situação que se descortinava após o dia da eleição. Um pleito renhido até as últimas horas do certame, com direito a dedo no olho e xingamentos à progenitores de ambos os lados. Os números da eleição, matematicamente, mostraram uma divisão quase diametral do eleitorado no país. Paradoxo interessante se bem analisarmos as propostas do candidato perdedor. E, mesmo, as propostas dos outros candidatos perdedores, também.
Como explicar o resultado da votação, que quase nos leva a um terceiro turno inesperado?

Ainda na sua primeira entrevista, já como Presidenta (Presidenta pode sim!) reeleita, teve que driblar insistentes perguntas inoportunas da jornalista do plantão sobre nome e perfil de futuros ministros disto e daquilo. O termo "pescotapa" me veio à cabeça e, acredito que, pelo sorriso tigresco dela, também passou por lá.
Você já viu um tigre sorrir? William Blake fez uma descrição em um dos seus poemas, muito ilustrativa. Tivesse antes visto este sorriso, teria sido uma descrição bem melhor. E esta foi a tônica do tratamento dado pela mídia à Presidenta em exercício e reeleita.
Minto, me desculpem, essa entrevista foi "amistosa".



O que vimos anteriormente, durante o desenrolar das campanhas, foi um rosário de acusações e denúncias. Bombásticas edições requentadas e confusas, sem pé nem cabeça que, à analise mais detalhada, mostravam ranço diverticionista e partidarista. Odorico me ajuda na empreitada. Premiações por delações a comprovados, e reincidentes, delinqüentes de terno e gravata eram as provas principais e os recheios dos dossiê apresentados semanalmente pela mídia opositora.
A trama é complicada. Seus objetivos se alastrariam em várias direções ao mesmo tempo. Conseguir mostrar falcatruas e desonestidades executadas por membros do executivo (deste!) em conluio com elementos da iniciativa privada. Benefícios particulares e desvios do erário em detrimento da união como um todo. Enfim, o menu de sempre que se dá rédeas soltas à ganância. Inuendos e conspirações eram mero detalhe das informações publicadas. Verdadeiros "Samba" do Stanislaw, com o fim de confundir incautos e curiosos e, ao mesmo tempo, vender semanários.
Até agora, reduzindo as informações mostradas ao essencial minimo possível, ainda não se comprovou nada.
"Amanecerá y veremos", já dizia minha avó.

Dentre as múltiplas falhas das quais o candidato, ou melhor, a candidata da "posição" ao governo era imputada, a mais grave diz respeito a má gestão da maior, e principal, empresa estatal: a Petrobras.
A empresa foi criada pelo então Presidente, Getúlio Vargas, em 3 de outubro de 1953, tem uma produção de pouco mais de 2 milhões de barris de petróleo por dia. Nasceu depois de disputas contra interesses estrangeiros (leia-se: norte-americanos) lideradas pelo general Horta Barbosa.

A Petrobras estava em 2011 no quinto lugar na classificação das maiores petrolíferas de capital aberto do mundo. Em valor de mercado, é a segunda maior empresa do continente americano e a quarta maior do mundo, no ano de 2010. Em setembro de 2010, passou a ser a segunda maior empresa de energia do mundo, sempre em termos de valor de mercado, segundo dados da Agência Brasil. Desmontar um prêmio deste calibre leva tempo. E preparação. Não é para corações fracos.


Mas, seguindo o brevário neo-liberal e prestando atenção a interesses econômicos e estratégicos, a venda da empresa seria um prêmio muito tentador para deixar passar. Ela é um aglutinador de paixões que somente poderia ser quebrado por uma causa grave. O governo disposto a desfazer-se dela sofreria retaliações de lados anteriormente opostos e antagônicos. Antes de ter que passar arnica para as dores, melhor fazer prosélitos...


E nada como ganhar prosélitos no grito! "Sou fera neném", me vem à cabeça. O resto a gente faz tranquilo. Aló, aló, gatas, gatinhas e cachorrões! Vote em mim pra Presidente!





Se eu for presidente, você vai se dar bem...


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domingo, 26 de outubro de 2014

Campanhas de mercado*

Acabaram-se, por fim, as campanhas politicas para eleger funcionários do executivo. 
Que alívio...  Bom, nem tanto assim.
Agora começa o desmonte de uma máquina e a montagem de outra muito diferente. O "set up" logístico que poucos conhecem e muito menos imaginam que consuma muitos recursos (tempo, dinheiro, e principalmente, mão de obra).


Poucos eleitores, mais por uma ignorância atávica do que por maldade, sabem que a escolha não acaba na eleição. É uma pedra jogada num espelho de água (naqueles lugares onde ainda há água suficiente para formar espelhos d'água, claro). As ondas se replicam e as sentiremos por vezes mais de quatro anos regulamentares.

(Re)Clamam aos céus e Deuses quando suas escolhas mostram-se erradas. Ou então, quando uma vez eleitos, os eleitos mostram seus verdadeiros interesses. Já falei que temos um pequeno defeito: a ganância endêmica?
Ricos querem ficar cada vez mais ricos e os pobres querem ser rico$. Pequenos desvios aqui e ali, mas basicamente é isso.
Uma vez tirado isto do caminho, podemos continuar.

As campanhas que acabamos de aturar (sim, pois somos por lei corporativa, obrigados a ceder nosso tempo, na esperança de não prestarmos atenção devida ao que propõem) foram de um desvio proposital de intenções e métodos. Marketeiros profissionais agindo como estagiários na administração com orçamentos astronômicos. Lembra daquele slogan: "Plante que o João garante"? Ele sofreu, neste caso, uma pequena modificação: "Gaste que o João garante". O 'João', no caso somos eles, você e eu.
A conta vem no final, não se engane!


As campanhas foram desenvolvidas em vários níveis de indecência, bastava prestar atenção. A mídia descobriu seu lado histriônico, selvagem, e sectário. Não era suficiente apoiar escancaradamente um candidato, tinham que atacar e difamar o outro. A desinformação como ferramenta de proselitismo. Goebbels se sentiria fascinado pela Era da Informação moderna. Anjos não fazem política.
As campanhas custaram valores absurdos. Tudo doação partidária e desinteressada 
Acredite, se puder. Coisa cada vez mais difícil.


Um dos muitos detalhes a ser percebidos foi o excesso de reforços positivos para manutenção e expansão dos mercados da forma como eles existem hoje, agora. Nenhuma mudança essencial. Isso foi explicito e inequívoco. A mensagem ficou claramente atestada em muitos dos discursos de campanha. Mesmo daqueles que perderam nas primárias. Marina (quem?) propôs algo levemente diferente... e fraco.
Frisson e êxtase passageiros na comunidade ecochata. Comoção geral no resto. A mídia não sabia o que fazer, muito menos o que dizer (!). Mas, foi por pouco tempo. Oposição posicionada. A democracia não ganhou, ninguém ganhou. A força centrífuga desta "Dança das Cadeiras" ejetou Marina até ela se espatifar contra a parede das suas próprias limitações.
Wally, onde está Marina?

Jesus e o próprio Diabo participaram da campanha mais escatológica e sem-vergonha dos últimos tempos.
A política acenava com o pão e os candidatos se encarregavam do circo. 
Carnaval em setembro... e outubro.
Ufa!






(* - Faço questão de publicar antes do resultado da votação)


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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sem nós, não vai funcionar...


Estamos no meio das campanhas políticas. De tanto ouvir mesmíces, ou melhor, de recusar-me a ouvir as mesmas velhas diatribes para apascentar bois, me dedico a ler e pensar. Sim, não me escondo de ouví-las totalmente, mas depois de certo tempo as transformo em ruído branco. Marquei meus candidatos e deles cobrarei as promessas de campanha ou posturas e decências. Do resto, prefiro acordar ouvindo o sabiá cantar, às 4h15 da manhã todos os dias, empertigado numa árvore no quintal

De um dos livros que escolhi para ler ("The World Set Free") de HG Wells, escrito em 1913 e publicado em 1914, a introdução na edição de 1921 diz:
"The dream of a World Set Free, a dream of highly educated and highly favoured leading and ruling men, voluntarily setting themselves to the task of reshaping the world, has thus far remained a dream."
("O sonho de um mundo livre, o sonho onde homens, líderes e dirigentes altamente qualificados e favorecidos, voluntariamente se oferecendo à tarefa de remodelar o mundo, até agora permanece um sonho.")
Lucia Santaella nos brinda, em seu ensaio sobre pós-humanismo com a seguinte introdução: "É curioso observar que, em meados dos anos 1980, quando a internet estava emergindo e a simbiose entre os seres humanos e as máquinas apenas se insinuava, em um tipo de ficção que passou a ser conhecida sob a rúbrica de "ciberpunk", jovens escritores já pressentiam os desenvolvimentos e complexidades do estado atual e futuramente prometido das tecnologias."


Posso estar redondamente enganado. Não seria a primeira, nem a última, vez. Mas esta sensação não me larga de que muitos programas implementados recentemente só beneficiam um dos lados da balança, enquanto o outro -o lado das pessoas- fica sempre para depois. Procrastinado abertamente em nome de inovações utópicas ou daqueles "bolos que esperamos, esperamos e... nunca cresceram".


Tomemos um exemplo básico dos afazeres humanos: vejamos o sistema econômico ou mesmo o bancário, como ele é executado no Brasil. Ano após ano, os bancos mostram balancetes com lucros bilionários enquanto o país se arrasta num (sub)desenvolvimento acidental -lamento, não consigo definir de outro modo-. Houve até o desplante de um comentarista de economia repetir que um dos bancos não havia repetido o lucro de anos anteriores, enquanto mostrava um positivo de R$ alguns bilhões.

A indústria recebe isenções e benefícios fiscais, criando bolhas de índices de produção que irão explodir mais adiante na cara do consumidor e do povo que não consome, também. Isto tudo enquanto, ela própria, não melhora nem produto nem produção. E, socialmente continuamos iguais.
Aqui e alí, aparecem bolsões temporários e limitados de inovação, observados e assumidos por alguns setores.
Resumindo, o sistema econômico é beneficiado, enquanto as pessoas são assumidas, unicamente, como consumidores. Mercados...

O paradoxo está em que, ao aumentar produção reduzindo custos com mão de obra, reduz-se também a quantidade de consumo. Visto que, se não há salários, ou então, pagam-se menos salários, haverá menos gente comprando. O 'mercado' diminui na mesma medida. Será que estou tão engando assim?
Será que ninguém pode ver como a transformação das pessoas em simples prestadores de serviços não anula a equação?

Tempos depois de ter publicado este post encontrei esta charge que ilustra diligentemente o post.
Não me furto a compartirla com vocês.





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Referências:

Biagio Jr., N., It's always about people, stupid!
Rüdiger F., Breve história do pós-humanismo:Elementos de genealogia e criticismo em Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, PUC-RS
Santaella, L., Pós-Humano, por quê? REVISTA USP, São Paulo, n.74, p. 126-137, junho/agosto 2007
Quill, E., When Networks Network em Sciencenews, vol. 182 #6 (p. 18) Set. 2012..


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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A canção do Espantalho

Todos cometemos erros. Grandes, pequenos... enganos.
Somos falíveis, imperfeitas criaturas que aprendemos às turras. Quando, e se, aprendemos.

Como já comentei antes num outro post, as nossas atribulações atuais são trazidas por muitas das soluções que demos a problemas que tivemos. Aplicamos soluções imediatas e, sorrindo, demos tapinhas nas costas uns dos outros. Nunca mais voltamos a pensar no assunto.
Bom, o assunto está ali, batendo na nossa porta...


Escolha um tema. Qualquer um, não importa. Veja as soluções aplicadas. Mentalize essa solução sendo aplicada milhares, milhões de vezes sem conta. Imagine (sim, este é um exercício de mentalização, desculpe) o que acontece com a aplicação de soluções pontuais a longo prazo.

Vou citar um exemplo.
Num sistema fechado, numa comunidade qualquer, elimine os agentes patogênicos (reduza contato externo), aumente a alimentação e o conforto e veja o que acontece. Haverá um aumento, quase que imediato, da população, uma diminuição da mortalidade até um ponto de estabilidade a partir do qual, a curva ascendente declina e se estabiliza na horizontal. Entropia constante.
Neste ponto acontecem várias coisas: o espaço diminui e o conforto também. Começam a aparecer conflitos. Por espaço, comida, conforto em fim. O sistema se fecha (collapses) sobre si mesmo até extingir. Desequilíbrio até equilibrar e, fim.
Lembre que falo de um sistema fechado, nada entra, nada sai.


O seu oposto, em sistemas abertos, onde podemos mudar os elementos (quase) sem aviso (em interação constante com o meio-ambiente).

Passamos a vida na flauta, imprevidentes e irresponsáveis.
Ao primeiro sinal de contrariedade, uns corremos todos à missa, às procissões, aos cultos dos deuses mais populares, aos de maior audiência.
E a gente pede. (Re)Clama socorros, bençãos e misericórdias à balde! Mas no tempo deles (o nosso), que casualmente, pode não ser o tempo de Deus. Se oceanos palpitam a cada mil anos, qual será o tempo de Deus, que conceitualmente, É muito maior?
E qual será a velocidade da sua reação entre ouvir o clamor dos seus 'filhos mui diletos' e agir de acordo ao seu merecimento?
Outros correm a por fogo em ônibus, solução atávica que, supõem eles, deverá chamar a atenção dos 'poderes divinos' e acelerar a solução do causo em questão.

Cortamos as árvores e cobrimos com cimento a grama. A isto chamamos de evolução e progresso!
Máquinas interrompendo a natureza. Como se ela, por sermos cegos e surdos, não visse nem ouvisse o grito de cada árvore viva que cai, ou que arde. Somos limitados, medimos tudo a fronteiras, espaços e tempos. Criamos até tecnologia para isso. Chamamos de relógio a milimétrica repartição do tempo em claros e escuros, dia e noite. Confiamos mais na máquina do que nos sinais que a natureza nos brinda gratuitamente.
Chegamos aos desplantes de irritar-nos com o canto do galo e dos pássaros às 04h51 da manhã, pois temos que levantar às 05h para preparar-nos para ir trabalhar!
Afinal, isso é civilizado!

Nossa evolução toda foi imposta por sobrevivência. Unidos a contragosto em bandos para defesa, para coleta, para colheita e produção. Aprendemos por meme que a sombra do bando em movimento não somente afasta o predador mas, somadas forças, em fáscio, nos torna fortes.


Quantas vezes não escutei: "o transporte não funciona!" ou "a água nunca vai acabar! Tem de monte nos rios, nos mares e oceanos!" Como fazer entender que a água, assim como a paciência, um dia acaba. Quem tiraria a água? "Afinal eu pago todo mês para regar com ela o cimento da calçada! Tenho dinheiro para isso!"
Quando a água acabar, primeiro (re)clame aos céus (de novo?), depois regue com dinheiro a calçada... veja os efeitos.

Por esses e outros exemplos, lembrei-me de um personagem cheio de paixões e quereres. O Espantalho de "Alice na Terra de Oz". E entendi, finalmente, quando ele diz.
"Se eu tivesse um cérebro, passaria as horas falando com as flores, consultando com a chuva. E coçaria minha cabeça enquanto pensamentos estariam ocupados incubando".
Mesmo do seu jeito inocente e ingênuo, acha que a solução para tudo está em... pensar na solução. Com perguntas simples e diretas, demostra sua infantil ignorância. Não teme nada, "exceto um fósforo acesso" e sua justificativa é, exatamente, não ter cérebro para poder se meter em problemas. Ou, criá-los.
Negando ingenuamente aquilo que mais quer.

Ao meu ver (às favas com o 'achismo'!), somos todos, ou uma grande, enorme maioria, como o meme do espantalho da Alice. Negamos a nós mesmos, aquilo mesmo que mais desejamos. Fomos treinados para isso. Dificilmente levantaremos e gritaremos: "Basta!" E, quando finalmente o fizermos, de tão atabalhoado, solucionaremos um problema imediato e ao mesmo tempo plantaremos as sementes para outro no futuro.

O conceito criado por Richard Dawkins em 1976, "meme" é uma ideia ou estilo que se espalha de pessoa a pessoa dentro de uma cultura. Um meme age como unidade mínima de informação para carregar ideias culturais, símbolos ou práticas que podem ser transmitidas de uma mente a outra através de escrita, fala, gestos, rituais ou outro fenômeno imitável com um tema mímico. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Escute comigo:



(Scarecrow)
I could wile away the hours
Conferrin' with the flowers
Consultin' with the rain
And my head I'd be scratchin'
While my thoughts were busy hatchin'
If I only had a brain

I'd unravel any riddle
For any individ'le
In trouble or in pain

(Dorothy)
With the thoughts you'd be thinkin'
You could be another Lincoln 
If you only had a brain

(Scarecrow)
Oh, I would tell you why
The ocean's near the shore
I could think of things I never thunk before
And then I'd sit and think some more

I would not be just a nuffin'
My head all full of stuffin'
My heart all full of pain
I would dance and be merry
Life would be a ding-a-derry
If I only had a brain


Diga se não parecemos com o Espantalho, perdidos numa arquitetura do pânico, à qual nunca estaremos atualizados.
E agora licença, pois "I'll be thinking of things I never thunk before, and then I'll sit and think some more..."



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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mobilidade urbana

Dia D, ao começo do fim da Segunda Guerra Mundial, em 06 de junho de 1944, foram transportados um pouco mais de 156 mil soldados em um único dia. Uma proeza que até hoje, setenta e tantos anos após, é cantada e celebrada em verso e prosa. De lá para cá vimos e ouvimos uma miríade de informação sobre o feito logístico que foi alcançado. Pouco importavam o número de mortos e feridos na primeira hora ou a destruição que a guerra impôs.


A dança milimétrica das peças sobre o tabuleiro, os transportes girando para obter sincronia perfeita e fazer ondas de assalto geograficamente planejadas, obtendo saturação. Vencer o inimigo pelo volume numérico da oponência. O cálculo da maré e dos ventos, o horário certo, e uma tonelada e meia de informações multidisciplinares prévias ao evento, todas analisadas em unissono.
Nada deixado ao "acaso", sem fios soltos. Sabiam como funcionava e porque.



Não somente ideias e ideais em campos opostos, modos de vida estavam em jogo. A psique de ambos os lados posta na balança. Quem estava, e quem não foi lá participou de uma forma ou outra da batalha que ecoa até os dias de hoje. 156 mil soldados e seus equipamentos, um dia pleno de processos de logística. G2, G3 e G4.
"Mas, quem conta a história são os vencedores..."


Setenta e tantos anos mais tarde, no Brasil, país em desenvolvimento, está às voltas com um inimigo muito mais insidioso: a gestão imprevidente e diletante.
Bem no meio de uma federação criada nos moldes da americana, existe um sistema de transporte urbano multimodal capaz de deslocar um contingente parecido com aquele.


O município de São Paulo, capital do estado do mesmo nome, possui o 10º maior PIB do mundo, (15) representando, isoladamente, 11,5% de todo o PIB brasileiro 10 e 36% de toda a produção de bens e serviços do estado de São Paulo, sendo sede de 63% das multinacionais estabelecidas no Brasil, (16) além de ter sido responsável por 28% de toda a produção científica nacional em 2005.(17) A cidade também é a sede da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&F Bovespa), a segunda maior bolsa de valores do mundo em valor de mercado.(18) São Paulo também concentra muitos dos edifícios mais altos do Brasil, como os edifícios Mirante do Vale, Itália, Altino Arantes, a Torre Norte, entre outros.


São Paulo é a sétima cidade mais populosa do planeta e sua região metropolitana, com cerca de 20 milhões de habitantes (19) é a oitava maior aglomeração urbana do mundo.(20) Regiões ao redor da Grande São Paulo também são metrópoles, como Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba; além de outras cidades próximas, que compreendem aglomerações urbanas em processo de conurbação, como Sorocaba e Jundiaí. Esse complexo de metrópoles — o chamado Complexo Metropolitano Expandido — ultrapassa 30 milhões de habitantes (cerca de 75% da população do estado) e forma a primeira megalópole do hemisfério sul.(21)

Todo dia as engrenagens do município giram seguindo os mesmos padrões. Seus sistemas têm picos de atividade repetitiva, Funcionamento-manutenção-funcionamento, uma e outra vez a repetir.


Somente o sistema de transporte urbano, por exemplo, funciona repetindo o mesmo desempenho diário:
  • os trens transportam 1,1 milhões de pessoas;
  • o metrô transporta 4,5 milhões de pessoas e
  • os ônibus transportam 9,9 milhões,
em media diariamente. Somando esses valores todos dão: 15,5 milhões de pessoas, em média. 7.75 milhões para ir e 7.75 milhões para voltar. Diariamente.
Ainda estou/estamos esperando para ver os cantares, em verso e prosa, deste feito de logística.

O que vemos é um total detachment entre processo e (sujeito) processado. Muito provavelmente por ignorância dos números elevados de uso, ou da importância do processo logístico em si. Ou ainda pior, pela ignorância da complementaridade de ambos. Como se o passageiro não participasse do processo de transporte, não pertencesse, ele próprio, à cidade, ao município, em que vive e trabalha. Não percebe a ligação estreita entre si e o ambiente que o rodeia.
Pólis [(Grego: πόλις), plural poleis (πόλεις)] é um conceito muito vago e complexo para ele entender. Ainda mais para aceitar que seja parte constituinte de si mesmo.


A ideia geral é, resumindo, que: assumem, a cidade e o seus habitantes como dois indivíduos diferentes e completamente independentes um do outro. Este conceito ninguém discute. "Só sei que foi assim" - disse Chicó.

Isto explicaria, então, porque quando há "manifestações populares ou públicas", os exemplos mais evidentes do "Poder Público" sejam justamente os transportes urbanos. E, sejam eles, os que primeiro sofram a sanha ensandecida da massa. Queimam-se ônibus, quebram-se composições de trens ou depredam-se estações de metrô. Agentes econômicos vêm logo a seguir. Interrupções ao trânsito e depredações da propriedade privada, nem sempre ligadas aos poderes públicos, acompanham a "expressão de descontentamento popular".

Todos sabem que o sistema não funciona, só não têm a menor ideia de como é mesmo que ele funciona. E, igual ao vôo das abelhas, o sistema continua funcionando sem alarde. Nem político, nem historiador, ou apesar deles todos. Poucos poetas e alguns cineastas ainda se assomaram timidamente ante o espetáculo do processo em curso. O próprio governo não se apercebeu do volume que tem em mãos.
O povo o assume como natural, um seu direito. Como quando os antigos reis anunciavam seus "direitos divinos" de governar.



O crescimento da cidade exige do sistema de transportes adequações diárias de extensão e tempos. Não sendo proativo, o sistema segue, a duras penas, o desenvolvimento da metrópole. A substituição do transporte privado pelo transporte coletivo exigiria muito em termos de custo e movimentação.
E a cidade e seus habitantes, só repetem as palavras do Gen. Dwight D. Eisenhower no Dia D: "Não aceitaremos nada menos que a vitória total".





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Referências:

Dia D
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10
16
17
18
19
20
21
SPTrans

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