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quinta-feira, 5 de junho de 2014

RaConto


Era para ser uma cirurgia rápida.
Coisa de uma hora, duas no máximo.
Mas, tinha que chegar antes, bem antes, para eles terem certeza.
Preparativos e tal.
Eu, prevendo o que viria, tinha feito uma higiene radical no local e suas imediações.
Só não tinha raspado mais porque doía, era incômodo, e achei que não era preciso exagerar na coisa.
Encurtando a história: internei-me barbeada.
Me deixaram num quarto sozinha com as vestimentas para cirurgia.
Sabe aquele roupão que a gente põe ao contrário?
Passamos a vida toda aprendendo a vestir-nos e quando menos esperamos -pimba- descobrimos que podemos fazê-lo de outro jeito.
Errado.
Bom, troquei e deitei esperando amanhecer e começar a cirurgia.
Doida para dar um fim nesse sofrimento mensal que me inutilizava doloridamente.
Tinha uma coleção de miomas e sangrava abundante quando entrava nos periodos menstruais.
- "Tiramos tudo e acabamos com isso" - foi a recomendação peremptôria da ginecologista, "Já sofrestes demais, não precisas mais disso."
- "Então tá" - disse, concordando plenamente que era dor demais todo mês para suportar.
- "Cirurgia, na semana que vem", disse, "nem um minuto mais!"
- "Sim..." Achei que seria inútil resistir a um convite tão... tão... sei lá.
Lá estava eu, deitada, coberta e... com frio.
Um frio vinha de dentro. Além do frio de fora.
Aqui na cidade de manhã, no verão é frio, no inverno então...
Quase dormia quando suavemente abriu-se a porta.
Uma enfermeira de certa idade incerta entrou trazendo o que me pareceu uma bagette de couro marrom sob o braço.
Acordei, ou acho que acordei.
- "Bom dia, querida!" disse ela. "Vim completar os preparativos para sua cirurgia".
- "Abra as pernas por favor, sim", me pediu cortesmente.
Enquanto obedecia, ela abriu o zipper da "baguette" e escolhia suas ferramentas, como um golfista de torneios escolhendo um dos ferros ou madeiras para sua proxima tacada genial.
Deu uma olhada rapida no local e voltou-se à sua baguette.
Acho que foi mais para quebrar o gelo do que por cortesia profissional que disse: "Em todos estes anos tenho visto cada coisa..."
A minha "coisa" devia ser uma delas?
Nem sabia que existia essa especialização na medicina.
Eu acreditava que aquele "Hitlerzinho" de araque que tinha sobrado não faria diferença.
Acredito que ela não acreditava nem em Hitler.
Voltou da baguette com o que me pareceu uma navalha de barbear de cabo nacarado, como aquelas dos barbeiros dos anos 50.
E de muita capa de jornal, na seção policial.


A geografia do local não é das mais fáceis e me pareceu temerário essa navalha passear-se pelo Hitler que havia deixado para trás na minha toilette.
Ela se aproximou, acompanhada da navalha na mão que segurava -certamente- numa posição que devia ser técnica cirúrgica antes de Galeno nascer.
Ela se aproximou mais... e eu esquecí minhas orações favoritas!
Que digo as favoritas, esquecí de todas elas!
Tinha alguém com uma navalha nacarada lá na minha coisa!
Um movimento ágil do punho. Um ventinho gelado. Um susto.
Uma ilusão.
Ela se endireitou, levantou, limpou a lâmina da navalha. Dobrou-a e guardou profissionalmente na baguette.
E acabou!
- "Só isso?" perguntei incrédula.
- "É, não foi das mais difíceis. Tenho tido cada Rasputin aqui que me cansa. Você foi fácil", respondeu enquanto fechava a baguette.
- "Raspuquem?" me atreví a pensar em voz baixa, recuperando o fôlego perdido.
Ainda teve o desplante de tirar um espelhinho do bolso, daqueles de mão, e me mostrar o efeito do seus serviços.
O Hitler tinha dado passo a um Kojak de seriado de televisão.


A cirurgia? Essa correu bem, obrigado.
Só doi quando rio de pensar na navalha de cabo nacarado.
...
E das coisas que deve ter visto.
E dos Rasputins que passaram por ela.

terça-feira, 18 de março de 2014

GuestArte 1: Bancos

Recentemente, estive lendo e pensando em modos de ver e dizer, comunicar coisas.
Modos de expressar e expressão. Tintas e escritas coloridas, cada qual ao seu modo específico, ao seu tempo de leituras e significados. Unir significado a significantes e com mais uma pitada de significação!
E teremos a receita básica de artes.
Códigos musicados à leitura silenciosa, quando significados são adicionados, pessoal e particularmente, às imagens vistas(lidas): a epifania sincrônica.
Convido-os, agora, a musicar imagens que ví (captei a celular - ex128) nas minhas andanças. Por isso do "Guest arte" lá encima no título. Partilho, passos e trilhas, bancos, igrejas, luzes e sombras, como frases pinçadas de uma história maior.
Bem maior.
Venha; veja comigo o que eu ví.
Seja meu convidad@... vamos.











domingo, 16 de fevereiro de 2014

Tropismos digitais

Tropismo é um conceito muito usual em biologia e que se refere ao crescimento, e movimento, que acontece principalmente com as plantas. E, como ele é condicionado, grandemente, pelo ambiente externo. A força menor cede ante a força maior, a resistência menor cede ante a insistência maior mesmo que esta esteja sendo exercida pela força menor, etc., etc.
Conseguem ver o que vejo?

Precisa de explicação e a faço. (Sim Francis, vou parar de ler dicionários! Prometo...)
Estive (re)lendo os comentários deste post hoje de manhã e percebo que todos declararam estarmos frente a uma mudança de atitudes. Uma mudança que (estejamos cientes dela ou não) já nos atinge fisicamente como uma praga. Como qualquer doença, não respeita raça, gênero, idade ou "conta bancária" -já diria o HTorloni. Mas, o que me chamou a atenção desta re-leitura, foi o quadro que se me apresentou: tropismo(s).
Confesso que é uma mistura do que tenho lido e escrito.


Juntamos, leia-se: somamos, gente à tecnologia.
Em pontos focais, ao redor do mundo, criam-se tecnologias cada vez mais avançadas. A produção em escala industrial e seus processos criam mercados e consumo. Vejam que, como acontece com as plantas que desviam seu crescimento ao encontrar um obstáculo intransponível, a sociedade mudou ao ser indiscriminadamente exposta à tecnologia.
Dai tropismos...

Entendem agora porque falei "somamos"? Somamos "smart gadgets" às pessoas.
Lamentavelmente, desta soma não retiramos "smartpeople", continuamos tão gente (como em mensch) quanto dantes. Como já antes tinha comentado neste blog.
Não melhores, apenas despidos de alguns "atavismos", chamemos-lhes assim. Grande parte da nossa memória a passamos, sem pestanejar, para as nuvens sem chegarmos a entender o que signifique nefelibata, por exemplo.

Expomos-nos a estas novas tecnologias, como já o fizemos antes com o rádio e a televisão. Tecnologias que foram ficando cada vez mais interativas e ubiquitas, e que não parecem ter perdido momento durante toda sua evolução, mas muito pelo contrário. Sua evolução fica todo dia mais rápida.

Enquanto isso, no outro braço da equação... mmm...
Nossas crianças aprendem mais rápido!
Nossas crianças respondem a estímulos de cores e sons. Elas escutam melhor que qualquer adolescente que fique ligado a fones ouvindo música e a nada mais. Bach, Beethoven, Shakespeare, não se fizeram ouvir por mais gente, gritando nem aumentando o volume das suas composições. E ainda somos capazes de reconhecer trechos ínfimos delas num assovio passageiro, num comentário sem importância.
As artes evoluíram como nunca antes!
Depois que Gronk descobriu que pintar parede de cavernas dava status, o mundo nunca mais foi o mesmo. Apareceu o primeiro "designer de interiores" do mundo!


Podemos fazer muito mais coisas no mesmo espaço de tempo!
Temos muito mais tecnologia para fazê-lo. Qual a graça? Temos que insistir que "essas coisas" tenham sentido e utilidade não somente para seu criador.
Podemos imaginar quase qualquer coisa que queiramos!
Com toda essa tecnologia a calcular por nós, ainda me surpreendo que consigamos pensar por nós mesmos. E, em alguns casos, confesso, que tenho certeza que não o andamos fazendo lá muito bem. Vejam o seguinte argumento muito popular ultimamente em SP: para protestar contra as deficiências do sistema de transportes urbano, queimamos (e/ou deixamos queimar) os elementos desse mesmo transporte que estão funcionando.
Encontrem a lógica desse discurso!

De modo algum sou contra a tecnologia, sou muito a favor dela. Me diverte e alivia.
Contudo, e insisto neste ponto (a tal tecla que vivemos apertando): precisamos evoluir como raça.
Pensar, amar, respeitar-nos uns aos outros. Ultimamente para cada novo relacionamento precisamos -ANTES- assinar um contrato de adesão! Cheio de letrinhas miúdas em legalês e recomendações confusas.
Não era mais fácil quando eram somente dez?

Em algum lugar esquecemos o metrônomo do coração, como dito por Villa-Lobos.
E ainda tem muito mais



________________________

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Criatividade

Quando crianças achamos que todos os problemas TÊM solução.
Podemos tudo, basta imaginar.
O problema está em que, assim que entramos na "escola", somos treinados a esquecer criatividade e a seguir regras, mesmo que sejam erradas ou existam alternativas melhores. E aprendemos usando mêtodos e fórmulas que ultimadamente nos colocarão dentro de caixas facilmente catalogáveis.
...


(i'll be back...)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Relativismo

Fui treinado a salivar quando escutasse um sino. Hoje o sino foi eliminado e tenho que continuar salivando apesar disso. Está me levando à loucura quebrar este molde e padrão comportamental. Uma roda dentada que não encontra ajuste no sistema em que está. Unidade no vácuo escuro, acho que acabei de cair num experimento comportamental. E um holismo relativista me acena com várias direções ao mesmo tempo... que continua passando impassível.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Jae Rhim Lee

Esta moça tem uma proposta a fazer.



Prestem atenção que em nenhum momento ela contou piada.
E, para aqueles que não falam inglês, fiz uma tradução do discurso:
"...
Tradução Jae Rhim Lee no TED
"Bom, estou aqui para explicar
porque estou usando estes pijamas de ninja.
E, para fazê-lo, antes gostaria de falar
sobre as toxinas ambientais no nosso corpo.
Alguns de vocês já devem saber
sobre o composto Bisfenol A (BPA).
É um endurecedor de materiais e um estrógeno sintético
encontrado no interior das latas de alimentos
e alguns plásticos.
O BPA imita os hormónios do corpo
e causa problemas neurológicos e reprodutivos.
E está em todo lugar.
Um estudo recente encontrou BPA
em 93% das pessoas a partir dos 6 anos.
Mas é somente um composto químico.
O Centro de Controle de Doenças nos Estados Unidos
diz que temos 219 poluentes tóxicos em nossos corpos,
e estes incluem conservantes e pesticidas,
e metais pesados como chumbo e mercúrio.
Para mim, isto diz 3 coisas:
primeiro, não se transforme em um canibal.
Segundo, somos responsáveis e vítimas da
nossa própria poluição.
E terceiro,
nossos corpos são filtros e depósitos
de toxinas ambientais.
Então, o que acontece com todas essas toxinas quando morremos?
A resposta curta é:
Eles voltam ao meio-ambiente de uma ou outra forma
continuando seu ciclo de toxicidade.
Mas nossas atuais práticas funerárias
somente pioram a situação.
Se você for cremado,
todas estas toxinas que mencionei são liberadas na atmosfera.
E isto inclui 2500 quilos de mercúrio
somente das nossas obturações dentárias por ano.
E em um funeral americano tradicional,
o defunto é coberto por enchimentos e cosméticos
para que pareça vivo.
Então é enchido com formol tóxico
para retardar a decomposição -
uma prática que causa problemas respiratórios e câncer
no pessoal das funerárias.
Então, tratando de preservar nossos corpos mortos,
negamos a morte, envenenando os vivos
e ainda prejudicamos o meio-ambiente.
Enterros verdes ou naturais, que não usam embalsamamento,
são um passo na direcção certa,
mas eles não lidam com as toxinas existentes em nossos corpos.
Penso haver uma melhor solução.
Sou uma artista,
gostaria de oferecer uma proposta modesta
no encontro
da arte, ciência e cultura.
O Projeto Enterro Infinito (Infinity Burial),
um sistema de enterro alternativo
que usa cogumelos
para decompor e limpar toxinas nos corpos.
O Projeto Enterro Infinito
começou há alguns anos com uma fantasia
criar o Cogumelo Infinity -
um novo cogumelo híbrido
que decomporia os corpos, limparia as toxinas
e forneceria nutrientes para as raizes vegetais,
sobrando adubo limpo.
Mas aprendí que é quase impossível
criar um novo cogumelo híbrido.
Também aprendí
que alguns dos nossos cogumelos mais gostozos
podem limpar toxinas ambientais no solo.
Então pensei; talvéz possa treinar um exército
de cogumelos comestíveis que limpem toxinas
a comer meu corpo.
Então hoje, coleciono o que descarto ou desprendo -
meu cabelo, pele, unhas -
e alimento com eles estes cogumelos comestíveis.
Enquanto os cogumelos crescem,
colho os melhores
para transformá-los em Cogumelos Infinity.
É uma forma de fixar e selecionar o processo de procriação
para a pósvida.
Então quando eu morrer,
os cogumelos Infinity vão reconhecer meu corpo
e serão capazes de comé-lo.
Muito bem, para alguns de vocês,
isto pode parecer muito, muito louco.
(Risos)
Só um pouquinho.
Sei que não é o tipo de relação
a qual aspiramos ter com a nossa comida.
Queremos comer, não ser comidos, pela nossa comida.
Mas enquanto vejo os cogumelos crescer
e digerir meu corpo,
imagino que o Cogumelo Infinity
como o símbolo de uma nova forma de encarar a morte
e a relação entre meu corpo e o meio-ambiente.
Vejam, para mim,
cultivar o cogumelo infinity
é mais do que experimentação científica
ou jardinagem ou criar um animal de estimação,
é um passo na aceitação do fato
de que algum dia vou morrer e decompor.
Também é um passo
para assumir a responsabilidade
de meu próprio fardo no planeta.
Crescer os cogumelos também é parte de uma prática maior
de cultivo de organismos decompostores
chamados decompicultura,
um conceito desenvolvido pelo entomologista
Timothy Myles.
O cogumelo Infinity é um subgrupo da decompicultura
que chamo decompicultura corporal e remediação tóxica -
o cultivo de organismos que decompõem
e limpam toxinas dos corpos.
E agora sobre estes pijamas de ninja.
Quando estiver completo,
planejo integrar os cogumelos Infinity a vários objetos.
Primeiro, uma vestimenta de enterro
infundida com esporos de cogumelo,
O Vestido Mortuário Cogumelo.
(Risos)
Estou vestindo o segundo protótipo
desta vestimenta mortuária.
Está coberta por uma rede crochetada
embedida em espóros de cogumelo.
O padrão dendrítico que vem
imita o crescimento das mycelia dos cogumelos,
que equivalem às raizes das plantas.
Também estou criando um kit de decompicultura,
uma variedade de cápsulas
que contêm espóros do cogumelo Infinity
e outros elementos
que aceleram a decomposição e a remediação tóxica.
Estas cápsulas são embebidas em uma geléia rica em nutrientes
uma espécie de segunda pele,
que dissolve rapidamente
transformando-se em papinha para os cogumelos em crescimento.
Planejo concluir o kit de decompicultura
no próximo ano ou dois,
e então gostaria de começar a testá-los,
primeiro com carne vencida do mercado
e então com sujeitos humanos.
E, acreditem ou não,
algumas pessoas já doaram seus corpos para o projeto
para ser comidos pelos cogumelos.
(Risos)
O que aprendí ao falar com estas pessoas
é que compartilhamos um desejo comum
de entender e aceitar a morte
e minimizar o impacto de nossa morte sobre o meio-ambiente.
Eu quiz cultivar esta visão
igual que os cogumelos,
por isso formei a Sociedade Decompicultora,
um grupo de pessoas chamados decompinautas
que activamente exploram suas opções postmortem,
almejam aceitar a morte
e cultivam organismos decompostores
como o cogumelo Infinity.
A Sociedade Decompicultora compartilha a visão
de uma mudança cultural,
de nossa atual cultura de negação da morte e preservação do corpo
para uma de decompicultura,
uma aceitação radical da morte e decomposição.
Aceitar a morte significa aceitar
que somos seres físicos
intimamente conectados ao meio-ambiente,
como uma pesquisa sobre toxinas no meio-ambiente confirma.
Como se diz;
do pó viemos e ao pó retornamos.
E, uma vez que entendermos que somos ligados ao meio-ambiente,
vemos que a sobrevivência de nossa espécie
depende da sobrevivência do planeta.
Acredito que este seja o começo
da verdadeira responsabilidade ecológica.
Obrigado.
(Aplausos)
..."

segunda-feira, 15 de março de 2010

Paixão

"Agimos como se conforto e luxo fossem os principais ingredientes da felicidade, quando tudo o que realmente queremos é algo que nos entusiasme".
W. Beausay II