segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mobilidade urbana

Dia D, ao começo do fim da Segunda Guerra Mundial, em 06 de junho de 1944, foram transportados um pouco mais de 156 mil soldados em um único dia. Uma proeza que até hoje, setenta e tantos anos após, é cantada e celebrada em verso e prosa. De lá para cá vimos e ouvimos uma miríade de informação sobre o feito logístico que foi alcançado. Pouco importavam o número de mortos e feridos na primeira hora ou a destruição que a guerra impôs.


A dança milimétrica das peças sobre o tabuleiro, os transportes girando para obter sincronia perfeita e fazer ondas de assalto geograficamente planejadas, obtendo saturação. Vencer o inimigo pelo volume numérico da oponência. O cálculo da maré e dos ventos, o horário certo, e uma tonelada e meia de informações multidisciplinares prévias ao evento, todas analisadas em unissono.
Nada deixado ao "acaso", sem fios soltos. Sabiam como funcionava e porque.



Não somente ideias e ideais em campos opostos, modos de vida estavam em jogo. A psique de ambos os lados posta na balança. Quem estava, e quem não foi lá participou de uma forma ou outra da batalha que ecoa até os dias de hoje. 156 mil soldados e seus equipamentos, um dia pleno de processos de logística. G2, G3 e G4.
"Mas, quem conta a história são os vencedores..."


Setenta e tantos anos mais tarde, no Brasil, país em desenvolvimento, está às voltas com um inimigo muito mais insidioso: a gestão imprevidente e diletante.
Bem no meio de uma federação criada nos moldes da americana, existe um sistema de transporte urbano multimodal capaz de deslocar um contingente parecido com aquele.


O município de São Paulo, capital do estado do mesmo nome, possui o 10º maior PIB do mundo, (15) representando, isoladamente, 11,5% de todo o PIB brasileiro 10 e 36% de toda a produção de bens e serviços do estado de São Paulo, sendo sede de 63% das multinacionais estabelecidas no Brasil, (16) além de ter sido responsável por 28% de toda a produção científica nacional em 2005.(17) A cidade também é a sede da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&F Bovespa), a segunda maior bolsa de valores do mundo em valor de mercado.(18) São Paulo também concentra muitos dos edifícios mais altos do Brasil, como os edifícios Mirante do Vale, Itália, Altino Arantes, a Torre Norte, entre outros.


São Paulo é a sétima cidade mais populosa do planeta e sua região metropolitana, com cerca de 20 milhões de habitantes (19) é a oitava maior aglomeração urbana do mundo.(20) Regiões ao redor da Grande São Paulo também são metrópoles, como Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba; além de outras cidades próximas, que compreendem aglomerações urbanas em processo de conurbação, como Sorocaba e Jundiaí. Esse complexo de metrópoles — o chamado Complexo Metropolitano Expandido — ultrapassa 30 milhões de habitantes (cerca de 75% da população do estado) e forma a primeira megalópole do hemisfério sul.(21)

Todo dia as engrenagens do município giram seguindo os mesmos padrões. Seus sistemas têm picos de atividade repetitiva, Funcionamento-manutenção-funcionamento, uma e outra vez a repetir.


Somente o sistema de transporte urbano, por exemplo, funciona repetindo o mesmo desempenho diário:
  • os trens transportam 1,1 milhões de pessoas;
  • o metrô transporta 4,5 milhões de pessoas e
  • os ônibus transportam 9,9 milhões,
em media diariamente. Somando esses valores todos dão: 15,5 milhões de pessoas, em média. 7.75 milhões para ir e 7.75 milhões para voltar. Diariamente.
Ainda estou/estamos esperando para ver os cantares, em verso e prosa, deste feito de logística.

O que vemos é um total detachment entre processo e (sujeito) processado. Muito provavelmente por ignorância dos números elevados de uso, ou da importância do processo logístico em si. Ou ainda pior, pela ignorância da complementaridade de ambos. Como se o passageiro não participasse do processo de transporte, não pertencesse, ele próprio, à cidade, ao município, em que vive e trabalha. Não percebe a ligação estreita entre si e o ambiente que o rodeia.
Pólis [(Grego: πόλις), plural poleis (πόλεις)] é um conceito muito vago e complexo para ele entender. Ainda mais para aceitar que seja parte constituinte de si mesmo.


A ideia geral é, resumindo, que: assumem, a cidade e o seus habitantes como dois indivíduos diferentes e completamente independentes um do outro. Este conceito ninguém discute. "Só sei que foi assim" - disse Chicó.

Isto explicaria, então, porque quando há "manifestações populares ou públicas", os exemplos mais evidentes do "Poder Público" sejam justamente os transportes urbanos. E, sejam eles, os que primeiro sofram a sanha ensandecida da massa. Queimam-se ônibus, quebram-se composições de trens ou depredam-se estações de metrô. Agentes econômicos vêm logo a seguir. Interrupções ao trânsito e depredações da propriedade privada, nem sempre ligadas aos poderes públicos, acompanham a "expressão de descontentamento popular".

Todos sabem que o sistema não funciona, só não têm a menor ideia de como é mesmo que ele funciona. E, igual ao vôo das abelhas, o sistema continua funcionando sem alarde. Nem político, nem historiador, ou apesar deles todos. Poucos poetas e alguns cineastas ainda se assomaram timidamente ante o espetáculo do processo em curso. O próprio governo não se apercebeu do volume que tem em mãos.
O povo o assume como natural, um seu direito. Como quando os antigos reis anunciavam seus "direitos divinos" de governar.



O crescimento da cidade exige do sistema de transportes adequações diárias de extensão e tempos. Não sendo proativo, o sistema segue, a duras penas, o desenvolvimento da metrópole. A substituição do transporte privado pelo transporte coletivo exigiria muito em termos de custo e movimentação.
E a cidade e seus habitantes, só repetem as palavras do Gen. Dwight D. Eisenhower no Dia D: "Não aceitaremos nada menos que a vitória total".





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Referências:

Dia D
15
10
16
17
18
19
20
21
SPTrans

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