domingo, 13 de março de 2016

Políticas e Analfabetos Disfuncionais

Independente do que o IBGE diga sobre índices de alfabetização no Brasil, outros institutos também fizeram pesquisas sobre educação e o resultado foi outro.
Os institutos Ação Educativa e o Paulo Montenegro mostram que o quadro real atinge cerca de 68% da população, que somados aos 8% da totalmente analfabeta, dá 76% da população que não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas, ou apenas um em cada quatro brasileiros (25% da população) é plenamente alfabetizado...


Um governo de coalizão, por mais que não queiramos enxergar, expõe sim, a constrangedora situação que em que se encontra o governo da Presidenta Dilma. Um executivo perdido frente aos dois outros corpos confusos, autofágicos e insensíveis, numa vendeta particular. Onde hão de se aproveitar da confusão para acertar velhas rixas partidárias e agendas pessoais.

No momento em que o país precisa de gestos de desprendimento e coragem, houve um retalhamento e divisão gerencial movida à grito, na busca de maior evidência sectária. Não, nunca no interesse da nação, arcaico modelo esquecido, mas de assuntos mais mundanos e mesquinhos.


Ninguém em sã consciência pode acreditar que um governo de coalizão, sem uma mudança efetiva, irá melhorar o resultado de suas pastas. E, muito menos que esse resultado aconteceria em poucos meses.
Quem espera isso pode ser confundido com um idiota.


É exatamente uma boa hora de exigir que, de uma vez por todas, se comece a atender as conveniências e interesses republicanos. Que o povo, corpo da República, seja por fim beneficiado. Não só os excelentíssimos senhores senadores ou deputados.
Nem a juizes e procuradores.


Enquanto o país estiver mergulhado em crises políticas e econômicas cada vez mais graves, e a mídia partidária alimente com meias verdades ainda mais a confusão, não saberemos quem, nem quanto, são culpados. Ou do que, afinal.
Só colecionaremos suspeitos e delatores de um lado e juízes e carrascos do outro.

Transformamos a história do país numa sequência de sustos e surpresas, comuns às novelas da Globo.

Sim, é chegada a hora de esclarecer o que, em todo este tempo desde Floriano, tem acontecido.
Mas, os órgãos de controle e fiscalização, filhos de ardíz, não deverão ter desenhado limites de antemão nas suas funções. Estes sim enquanto aqueles não, escopos de diligências tingidas à colorações, tendências ou interesses políticos ou econômicos.
Sejamos, por fim, ambidestros.

A opção será devolver pros índios e pedir asilo, cortezmente.

Os mais pobres, como sempre, serão a moeda de barganha no discurso cada vez que algum político se auto investir de Salvador da Pátria, aqui não há nada de novo!
Até hoje nenhum "Salvador da Pátria" se lembrou do povo DEPOIS de ganhar o pleito, nenhum deles foi convidado à festa da posse. A "não presidente", será igual aos "presidentes não" que antes, e bem provavelmente, depois irão desfilar na rampa do Palácio em Brasília.
Pagaremos caro por políticos incompetentes lotearem e assumirem postos técnicos.

A sensação que nos resta é a mesma que antes sempre nos restou: "O Brasil é um país que de noite refaz tudo, o que de dia, Brasília desfez".



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terça-feira, 8 de março de 2016

Leitura, niveis de leitura e entropia visual

1.-
Biologicamente somos construídos -configurados, se preferir- para responder a estímulos externos.
Analogicamente, nos conectamos ao nosso meio-ambiente, mesmo que não prestemos atenção ao fato. Se não sabia; somos parte de todo ao nosso redor, queiramos ou não.
Conformemo-nos.


Assim que nascemos, somos imediatamente incomodados pela luz, não mais filtrada pelos fluidos e o corpo da nossa mãe e, pelo afago das correntes de vento, quando atingem nosso maior órgão, a pele.
A duras penas, nos acostumamos, e com o tempo aprendemos, primeiro por imitação e depois, já inseridos no ensino oficial, que o mundo lá fora de nós, é muito... mas muito, maior.
Oy vey!

Mas, mesmo antes de aprendermos o significado de nosso primeiro sorriso infantil, percebemos que nos movimentamos em um mundo semiótico. Onde objetos e coisas significam dentro do seu contexto imediato e a eles adicionamos a soma que somos nós. Ainda que muitos passemos pela vida sem nem sequer imaginar o que venha a ser semiótica.
Cada um de nós, a sua.


2.-
Azul para mim 'significa' uma coisa, enquanto o mesmo azul, para você ou eles, significa outra.
E vamos criando... repertório, por assim dizer, num caleidoscópio sempre a rodar.


Usamos esse 'repertório' diariamente para comunicar e comunicar-nos, uns com os outros. Coisa simples pois, para comunicar-nos (verbalmente), existem somente 6912 idiomas em todo o mundo, segundo o compêndio Ethnologue. Nem irei falar nos dialetos e outros patois que circulam. 6912 idiomas já dão suficiente dor de cabeça e confusão.
Lembre-se da história de Babel.

Se a cada elemento semiótico adicionamos um valor, como sentido e/ou significado, poderíamos adicionar uns quatro níveis ao caleidoscópio da figura acima, por cada elemento. E assim atravessamos a vida dançando nesse campo minado de formas e significados.

Respondendo, e incluindo, ao Sartre, se "o inferno são os outros", e eu sou 'os outros' dalguém, meus significantes e seus significados, surpreendem, assombram e agridem, se forem ao menos levados em conta e de outra forma são/seriam considerados, na melhor das hipóteses: Arte.


3.-
E a arte é uma representação muito particular de vários níveis de dimensão. Nem sempre comprometidas com entendimento ou cognição. Paradoxalmente, tanto de quem faz, quanto de quem olha. Pois admirar é algo que só faz quem vê o salto gracioso e elegante do tigre, quando este pula, sorrindo silencioso, na nossa direção.
O resto é pura percepção... às vezes.
Oy vey... de novo!


A arte também, nos leva à gênese de novos signos. O que, com a tecnologia, deixou de ser sua propriedade única e exclusiva. Hoje, qualquer id... um com um sistema mixo, consegue socializar seus 'pensamentos' com o apertar acidental de um botão.
Haja visto, este meu exemplo aqui.

Mas não se orgulhe ainda, a maioria de nós, não validamos nada. Muito pelo contrario, somos, quando muito, validados pelo resto. O que está fora de nós. Repetimos semas limitados ao que existe ou acreditamos seja verdade. (sic)

Se fizermos uma comparação em retrospecto, veremos que continuamos repetindo os artistas rupestres de Altamira ou Portugal. Nem percebemos que a memória deixou de ser individual e passou a ser um bem, armazenado e vendido, como qualquer outra mercadoria, pelos seus novos donos. Passamos, vertiginosamente, da pedra e dos livros para o digital. De bibliotecas silenciosas, passamos para Data-Centers, gelados e escuros. Mas, "tout va très bien", como diz a antiga canção dos Collegians.



Um byte é a unidade mínima de informação digital, o mais comum consiste de 8 bits. Um bit é a menor unidade de dados no computador. Bit é o acrônimo em inglês para dígito binário (binary digit = bit). Tem somente um de dois valores: 0 ou 1.
Depois da internet, os níveis linguísticos comentados por Saussure se esvaem na nuvem.




"Somewhere in the muck of frustration and guilt, however, is the secret thrill of starting over."  - Christina Xu

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terça-feira, 1 de março de 2016

Viagem Pitoresca ao Brasil, de Debret

Por: Eliana Rezende & Lionel Bethancourt


História pode também ser escrita por imagens, e livros nem sempre precisam de palavras dispostas umas após outras para compor um enredo. Este é o caso do livro "Viagem Pitoresca ao Brasil”, uma obra de Jean Baptiste Debret.

Imagens que povoam nosso imaginário, que são nossas velhas conhecidas desde os tempos de escola e que olhadas séculos depois nos mostram tanto! Caso não conheça, ou não se lembre, clique aqui para (re)ver/lembrar/conhecer.



A beleza e precisão dos traços de Debret são fantásticos e nos fazem pensar sobre o quanto hoje em dia as mãos e as possibilidades que estas tem de traçar e desenhar se afastam disso e aproximam-se de teclados e mouses....
Será que estaríamos desaprendendo?

Bem, não sejamos tão radicais. Desaprendendo talvez não.

Há, contudo, uma certa carga de imediatismo adicionada à fórmula de criação. Uma grande carga de imediatismo. Os materiais continuam acessíveis, e ainda mais, porém a velocidade de produção de resultados é que aumentou. E, definitivamente, tem algumas técnicas que requerem tempo.
Tempo para aprender e tempo para produzir... arte.

Na época em que Debret e seus colegas fizeram a viagem, o tempo transcorrido entre rascunho e obra acabada, teriam causado sua demissão de qualquer editora moderna. Hoje somos balizados por parâmetros: tempo, produção, custo. Produzir mais, consumindo menos. Tudo para ontem.

Ainda há bolsões heroicos de resistência, basta procurar com atenção. Veja, por exemplo o Behance e o DeviantArts, onde se estimula a criação pela exposição de iguais. Algo parecido com "The Studio" (de Manhattan em 1975) de Jones, Kaluta, Windsor-Smith e Wrightson, onde o ambiente compartilhado e a exposição mútua estimulava a criação um do outro. Guardadas as devidas proporções, claro.
Sim, temos que largar os teclados, os Cintiqs, e pegar um pouco mais no lápis e carvões.
Treinamento faz...




A criatividade é um elemento de fato muito interessante. A produção de Debret em seu tempo conseguiu trazer uma riqueza de detalhes que provavelmente nos dias de hoje passariam desapercebidos.

Lápis também é tecnologia e, é o olho que vê e a mente que cria, que tem esse poder de nos remeter a um tempo e espaço que hoje já não existem mais. O artista nesse caso, preocupava-se com a fidedignidade da imagem, mas com certeza introduzia elementos que tornavam sua imagem o "mais real" e factível possível.

Hoje acho que acabamos delegando muito às tecnologias. Agudeza, profundidade e minúcia não parecem constar em muitos dicionários de ditos profissionais.
De fato, precisamos aprender com esses traços.

Se tomarmos o tripé citado acima: tempo, produção e custo, toca no ponto fulcral de toda essa imediaticidade que aflige e poda qualquer criativo.
Que criatividade resiste a tal tripé?
De outro lado tanta imediaticidade garantirá quanto tempo de permanência?
Temos traços feitos há 300, 500, 1.000, 2.000 anos, mas será que teremos essa permanecia para as produções atuais?
E aí, caímos na discussão de outro post sobre a preservação digital de toda a nossa produção humana, incluindo as artes. Eis a importância de termos oásis e possibilidades de resistência criativa.

Um destes exemplos pode igualmente ser visto neste vídeo, da Café Communications, sobre tempo e criatividade.
Acho (achismo solto) que já deve ser farto conhecido de todos, pois roda faz algum tempo pela web. Mas para quem não conhece é uma excelente oportunidade e para quem conhece é uma ótima oportunidade de rever.




Após ver aquele, deveríamos sentar e assistir esta palestra (de 11min) do David Kelley na TED sobre como criar confiança criativa (clique aqui para ver). E teremos um contexto todo diferente sobre criatividade, tempo e... auto-eficiência.


Bons traços!




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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Desapego e outros Ciclos

De tempos em tempos somos re-apresentados à noção de desapego.
Desde os tempos do cristianismo original quando se tinha, compartilhava. Que, com o tempo mudou. O que houve foi uma depleção de recursos por limitações geográficas, sociais e tecnológicas.



Na Europa, esta depleção fez com que, nos séculos XV e XVI, houvessem as condições certas para as grandes aventuras descobridoras da outra metade do mundo... e os seus recursos.

A ideia, naquela época, não era de forma alguma compartir, mas sim captar recursos novos.
Todo o que se pudesse, feito em nome de uma 'realeza' qualquer. Com o tempo, a noção de desapego voltou, várias vezes e com roupagens distintas.

No final do século XIX e começos do XX, repete-se a situação de depleção de recursos e mercados. Deveria haver uma forma de captar ou criar mercados novos. A Revolução Industrial estava dando as cartas naquele tempo. Tudo acontecia porque a indústria assim permitia. A Torre Eiffel é, até hoje, seu maior produto exposto. O que mais se ouvia falar era de consumos e mercados. As guerras ainda pareciam uma boa solução para a captação de recursos, dar destino ao excedente e ocupar as massas com exercícios corporativos.

Um pouco antes da Segunda Guerra Mundial já existiam os movimentos em que o desapego voltava a aparecer (de novo). Vivia-se o momento, baseavam-se em filosofias e sistemas de vida, alguns poucos deles, ligados à natureza ou a uma vida mais natural. Isso era, mais pejorativamente, chamado de utopias. No entanto, o desapego como função do consumo não deixa de existir nunca.
Vive-se o momento, consume-se o agora.
Acabam-se as guerras, morre-se menos.
Surgem novos, e inesperados, mercados consumidore$.
Desapego... seja livre, seja você. Vista calças X, enquanto bebe aquilo-cola!



Veja que, quem vive o momento e consome o agora, sempre amealhou para nunca mais.
As condições do desapego, como mostrado hoje em dia, são a criação de mercados para quem nunca consumiu. O mercado de quem nunca teve, o mercado de quem quer ter, de quem quer ter mais.
A-g-o-r-a!

O desapego individual, como deixar de ter ou usufruir somente do que é necessário, existe só na canção do urso. Desapego como função de vida é prolongamento de destinação.
Como peças de reposição, até chegar ao final, já como matéria prima para nova produção.
E finalmente, surgir outra vez como produto, digno de desejo e... novo.


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Valor do Invisível

Diferente do produto, resultado das antigas esteiras rolantes, a tecnologia moderna acaba gerando um resultado imprevisto; a informação. Tornou-se comum usar o termo 'tecnologia da informação' para designar ferramentas de relação lógico-matemática (como computadores, por exemplo) que nos leva a uma limitação arbitrária do que seja tecnologia e do que seja informação.
Reduzindo uma e outra, ingenuamente, ao que entendemos e acreditamos seja verdade.

Digo ingenuamente, porque ao fazer a abstração do termo, isolamos a ferramenta do seu contexto e todo o resto à sua volta. Idiotizamos ferramenta e informação ao ponto da familiaridade intima.
E, mesmo a leitura desta última, ainda é confusa e arbitraria.


A 'descoberta' da informação como elemento importante ao desenvolvimento de negócios ainda causa assombro a certos gestores. E, animados com sua nova invenção, lançam mão da tecnologia da informação, pois esta implica ambas até no nome. Esperam que o milagre da multiplicação dos pães ocorra ao premer do botão "On".

Acreditam que softwares e outros aplicativos já virão, de fábrica, prenhes de soluções mirabolantes, índices e KPIs, capazes de justificar, preço e usos, perante o Relatório Anual da Diretoria.
Compram-se soluções, não mais ferramentas. Se a velocidade de transformação, a curva positiva das vendas e os índices de consumo dessa produção não aumentarem vertiginosamente, a culpa é do colaborador que não soube... 'colaborar'.

"Bem vindo à Era do Conhecimento" está errado, é a "Era da Informação!".
Mas, está escrito em letras garrafais na entrada.


Olhe à sua volta e perceba como (historicamente), depois da Revolução Industrial e de duas Guerras Mundiais, e algumas outras menos populares, a vida e o mundo mudaram. Economia, saúde, política e sociedade, mudaram para sempre. Já não são mais a mesma coisa e nem estão isoladas umas das outras. Há uma rede que une todas as redes, vertical e horizontalmente.
E a informação é seu combustível e fluxo.

A informação deixou de ser entidade intangível e se transformou em bem, origem de bens e valores. O conhecimento, resultado do processamento da informação, é o produto mais procurado. O conhecimento é o único local conhecido onde o moto-contínuo se dá. Seu produto é chamado de inovação.


Como na ilustração que fiz acima, que mostra o fluxo e resultado da gestão de informação em qualquer nível. A imagem é somente um momento dentro de um contexto iterativo muito maior e complexo. Imagine esta sequência acontecendo N vezes, livre e indefinidamente. E, no caso da "Inovação", como ocorre no átomo de carbono tetravalente, está aberta a mais ligações iguais e muito relacionadas. Pois a inovação É o resultado do processamento (criativo) do conhecimento e este, por sua vez, É resultado do processamento subjetivo e único da informação.
Simples, não?

Com a oferta de acesso à nuvem (cloud) a memória deixou de ser individual e passou a ser um bem, armazenado e vendido, como qualquer outra mercadoria, pelos seus novos donos. Passamos rapidamente da pedra e dos livros para o digital.
Mas, Tout va trés bien, Madame la Marquise, como dizia a antiga canção francesa.
Onde, ontem tínhamos, e desejávamos, bibliotecas enormes, hoje Data Centers cumprem a função de zelar pelos 0s e 1s, no silêncio e no frio.




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sábado, 26 de dezembro de 2015

Hoje e Sempre

Hoje
consigo te ver,
quando não puder
hei de te ouvir,
quando não conseguir?
Poderei respirar teu perfume
quando não der?
sentirei teu calor.

E, quando nem isso mais for possível?

Saiba que estarei sempre contigo
no calor que te abraça,
nos perfumes que sentes,
nos sons que ouves,
na luz que ilumina teus sonhos.
Até voltar a sermos um.
Sempre...



Para E.K.S.
(1950 - 2016)

domingo, 13 de dezembro de 2015

Tempestades e Copos d'água

Infantilmente me surpreendo quando, pensando em nada, percebo padrões ou imagens que parecem invisíveis aos olhos dos outros. Antigamente me assustava e fazia questão de esquecer ou fingir que não vi. Hoje, bem mais velho, aceito, e curioso presto atenção enquanto mantiver meu interesse.
Pouco tempo depois esqueço... pouco poderei fazer.





Ontem, prestei atenção na avalanche de notícias que me/nos atingia sobre o "Escândalo da Volkswagen" e suas intercorrências (o pedido de desculpas e a demissão do presidente da empresa nos Estados Unidos, o questionamento do uso de diesel, etc.) mundiais. Intrigado, comecei a pesquisar e pensar no assunto.


Ao mesmo tempo pensei no alcance da Volkswagen, o tamanho da empresa, os interesses que atinge ao redor do mundo. É uma empresa muito grande. Quase todo mundo usa seus produtos vez por outra. O alcance desse escândalo iria além-fronteiras, e não se deteria somente nos Estados Unidos.

Alguém deve ter pensado neste esquema. E esse alguém deve ter saído, não dentre os gestores-diretores-administradores, pois estes mal pensam em e pouco sabem como funciona um motor a combustão, em como o veículo é usado, nem as relações do uso do veículo com todo o resto (meio ambiente incluído). As relações de emissão de poluentes, subprodutos da combustão interna do diesel. A ideia para estes aparelhos anexados aos motores e os processos executados por eles para fingir a redução da emissão, não saiu da diretoria. Foi uma proposta aceita pela diretoria, sim, como genial na sua simplicidade e economia.
Mas, além disso; nada.
Inocentes por ignorância. (Onde já escutei isso?)



A solução veio de baixo... minto, do meio na hierarquia empresarial.
Algum engenheiro gaiato da P&D, dos tantos que há na Volkswagen e na BMW pelo mundo afora, confrontado com o desafio de reduzir as emissões, sem perder o desempenho, mudou um pouco a pergunta. Foi, inocentemente de: "como reduzir emissões poluentes sem perder desempenho" a "como fazer com que o motor reduza emissão em determinadas condições" (no teste de emissão de poluentes, por exemplo).

Para um engenheiro-mecânico essa é uma proposta infantil de tão fácil. Poder ia-se, com o mesmo expediente, fazer com que o condutor-proprietário do veículo, fosse avisado de problemas de desempenho e, destarte, maior emissão de poluentes. As luzes todas do painel de controle do veículo estão aí, exatamente, para isso; avisar das condições do veículo.

Não se perderia nada... ou pouco, em termos de tempo na oficina para ajustes e troca de componentes.
Todos os motores da Volks do mundo, um serviço gentilmente oferecido pela Volks aos seus clientes!
Mas, não... é muito mais fácil e barato ser esperto. Afinal, quem iria descobrir?



Foi uma proposta aceita pela diretoria, sim. Mas, a proposta, a solução, veio de baixo... não de baixo, veio do meio da hierarquia empresarial. Algum engenheiro pensou; como fazer com que os motores poluíssem menos. Deve ter apresentado a ideia no seu grupo de práticas, no departamento de P&D. E devem ter lançado essa questão mundialmente, todos os motores do mundo fariam a mesma coisa. A solução viria de alguma parte. Teria que vir.

Para reduzir sumariamente a emissão de poluentes do motor a Diesel há fórmulas matemáticas para conceber. Mas, essas mesmas fórmulas dizem que os motores ficariam muito mais fracos, poderiam fazer menos.

Aí veio uma outra pergunta: "como fazer com que os motores poluíssem menos mantendo a mesma potência?" Alguém deve ter pensado nisto daqui e, pensando, pensando, modificou sutilmente a questão: "como diminuir as emissões aos padrões exigidos nos testes?" e "como fazer com que os motores reconhecessem o teste de emissão?" Para um engenheiro mecânico, que somente trabalhe com motores a diesel, esta ideia não é assim tão descabelada, é possível.
Não é possível?

Uma ideia simples porque apesar de, nós míseros mortais, insistirmos em pensar no automóvel como uma entidade única, para um engenheiro -mecânico, ainda por cima- ele chega a minúcias de arruelas de pressão, por exemplo. A falta de uma arruela de pressão, diminui ou aumenta o desempenho do veículo. A questão de o teste ser mecânico, reduz a complicação para alguém que esteja acostumado a testes mecânicos. Não se modifica o motor, não se modifica o consumo, se cria um programa que, dadas as condições do teste de emissão de poluentes, o motor inteiro funcione diferente. As emissões de gases subprodutos da combustão a ser mensurados pelo teste são reduzidas, passa-se no teste. As condições voltam ao normal... o motor também. Para um engenheiro-mecânico, isto daqui ele faz (ou deveria saber fazer) dormindo.
Se não consegue fazer essa equação é melhor mudar de profissão.

Quer ver um exemplo simples?
O motor do Bentley Continental, modelo inglês, tem 8 (oito) pistões. Um dos maiores e mais potentes motores no mercado. A baixa rotação, ele automáticamente desativa 4 (quatro) desses pistões. E, ninguém dá pela coisa. Precisando de mais potência, ativam-se os pistões desligados e pronto. Coisas de rpm.. (Veja as especificações do motor aqui.)


Mas, voltemos à Volkswagen.
Os engenheiros têm a solução. A Volks obtêm vários produtos a partir dela.
Primeiro, e mais importante: marketing. "Os motores da Volks emitem menos poluentes, façam o teste." Hmm... só isto daqui poderia aumentar as vendas. Ver as vendas como um problema, é uma forma de ver toda a administração de uma empresa como a Volks. Manter essa estratagema, ardil, essa fraude é que são elas.
Se não me engano, a Fiat italiana, está fazendo propaganda na televisão de um veiculo que muda as características de funcionamento do motor ao girar de um botão. E, ninguém se pergunta, até onde esta adaptação poderia chegar?

Todos os motores iguais, resolvido o problema. Tanto que não dão pela coisa quando pedem para testar motores em ambiente controlado. Ambiente como o que acontece no teste de emissão de poluentes, por exemplo. Algumas trapaças mal deixam rastros, dizem Levitt&Dubner.

A estratagema foi descoberta acidentalmente, por comparação. O diretor da Volks pediu desculpas, o diretor da Volks foi demitido um dia depois do pedido.
Um tapinha nas mãos da Volkswagen e nada mais. Não precisa de nada mais. A indústria alemã está ali para isso.

Por outro lado, e bem mais perto da gente.
Desde pouco antes da reeleição da (Re)Presidenta Dilma Rousseff, e muito provavelmente por causa disso, está em curso o que se passou a chamar de "Operação Lava Jato". Que começou como rotineira investigação de lavagem de dinheiro e se transformou em uma entidade política, em assunto de discurso, e até em ponto de estudo jurídico. Alguns chamam de "vergonha internacional" (pessoalmente, não concordo). Vários países passaram por aqui. Aceito mais como depuração que defeito. Itália teve suas "mani pulite", e muito antes disso, um governador da NY, certa vez, chegou a afirmar: "É finita la cuccagna!". Mas todos esquecem.

Alguns acham que isto é produto local, como se o ser humano acontecesse somente no Brasil.
Se transformou num processo de corrupção, onde empresas privadas e a diretoria da maior empresa estatal, a Petrobrás, estão diretamente envolvidos. Há, lógico, corolários menores aqui e ali, até agora esquecidos e não nomeados. Escaramuças esparsas, mas não passam disso; diversão para desviar do propósito.


Resumidamente, empresas do setor privado pagavam propina a políticos, partidos políticos e diretores indicados por políticos em postos-chave na Petrobras para obter vantagens e contratos com a empresa nas suas (deles) próprias condições. Resumindo ainda mais; a Petrobras pagava muito mais caro (incluindo-se aí, a propina de todo mundo) por serviços prestados subpar. Um claro desvio de dinheiro público de proporções ainda a definir contabilmente... mas, muito provavelmente; Bíblicas.
Arts. 157 e 312 a 327 do Código Penal. Art. 316, particularmente, para começo de conversa.


Quase 100% da mídia brasileira, culpa a Petrobrás e a (Re)Presidenta Dilma. Ao ponto de alguns políticos ligados à oposição, a agendas Neoliberais muito particulares, e esquecendo posturas históricas, já terem projetos prontos para fatiar e vender a empresa. E, sob o pretexto do Estado Mínimo desfazer-se dela, como já o fizeram antes com comunicações, bancos estaduais, energia elétrica e água.
 
Mais uma vez me pergunto: "será que ninguém está prestando atenção ao movimento?"






Referências

Sandro Pozzi, Engenheiro dos EUA avisou há um ano sobre a fraude da Volkswagen - http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/23/economia/1442989565_895952.html, El País, 25.09.2015.
Alvaro Sanchez, Os pontos-chave para entender o escândalo da Volkswagen - http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/22/economia/1442929060_472526.html, El País, 22.09.2015.
Paulo Moreira Leite, O Castelo de Cartas da Lava Jato, - http://jornalggn.com.br/noticia/o-castelo-de-cartas-da-lava-jato-por-paulo-moreira-leite,
André Araújo, A criminalização das consultorias -
Folha, Entenda a Operação Lava Jato, http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/11/1548049-entenda-a-operacao-lava-jato-da-policia-federal.shtml
etcetera.
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