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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Charges e Desenhos

Gosto de desenhar. É uma das minhas funções. Vejo muitas coisas como desenho. Vejo muitos desenhos e desenhistas bons. Tem, entre os chargistas brasileiros que admiro, vários que se destacam. Desde o elegante J. Caulos, passando pelo Ziraldo, Negreiros e, ultimamente a Laerte, têm simplificado seu traço e aumentado seu significado. Suas charges são histórias que se encaixam em qualquer linha. Qualquer tempo.


Me pergunto por que será que havendo gente que consegue condensar e retratar eventos desta maneira, transformando o que seria de outra forma, o prosaico cotidiano em poesia e riso, continuamos a levar a vida como verdadeiros livros contábeis.

Estes artistas devem ter um desvio qualquer na sua psique que faz com que, num gesto curto, consigam traduzir a luz de quase toda escuridão. A sociedade aprendeu a ler e falar com eles. A civilização nasceu a fascículos grafitados nas paredes de cavernas. Deixaram os primeiros contos rupestres em Altamira e alguns ao norte de Portugal, me dizem. Foram os primeiros a imaginar os "selfies" em pedra lascada. Prática que foi logo depois abolida por causa dos ferimentos auto-inflingidos.
Para isso bastavam as guerras, das quais havia bastante.


O adensamento populacional cedeu lugar aos povoados e o adensamento destes às cidades. Nas cidades se desenvolveram as artes e ofícios e delas, a mecânica e a industrialização. Passos curtos, imaginados por traços livres, de pensar e observação.
Foram necessárias duas grandes guerras (e outras nem tão grandes assim) para acelerar a indústria e introduzir-nos, entre outras coisas, à tecnologia.

Pintores e poetas, inventaram idiomas. Músicos, apascentavam animais e reis.
O Sr. Arnheim está ali para não me deixar mentir sozinho. Ele bateu nesta mesma tecla, e ainda: simplicidade, clareza e equilíbrio até não poder mais. Dizia, e repito: "The arts are neglected because they are based on perceptions and perception is disdained because it is not assumed to involve thought" (Negligênciamos as artes pois elas se baseiam em percepções e a percepção é desprezada porque se assume que não envolva raciocínio). E pior é que todo mundo acredita piamente que seja assim! Afinal, ninguém vai aos museus para pensar, não é mesmo?

E, os desenhistas, continuam repetindo os gestos como em Altamira. Surpreendendo-nos a cada novo dia com seu pensar e sua observação. Aceitamos, sem notar, sua participação em quase tudo o que conseguimos ver. São eles que nos mostram desenho em tudo. Nossos gostos são ditados à lápis, ou como alguns preferem; à pointer em tablets Cintiq.


Porém, como constata Arnheim, no seu "Visual Thinking" (1969):
"My earlier work had taught me that artistic activity is a form of reasoning, in which perceiving and thinking are indivisibly intertwined. A person who paints, writes, composes, dances, I felt compelled to say, thinks with his senses. This union of perception and thought turned out to be not merely a specialty of the arts. A review of what is known about perception, and especially about sight, made me realize that the remarkable mechanisms by which the senses understand the environment are all but identical with the operations described by the psychology of thinking. Inversely, there was much evidence that truly productive thinking in whatever area of cognition takes place in the realm of imagery."

Mesmo assim, hoje em dia, em plena Era do Conhecimento, a imaginação de artista é relegada a pouco mais que piadas de salão. Parece que falamos Pollock, Baskiat e nosso sujeito não passa do elemento intuído em De Chirico. Ou como descreveu recentemente um jornalista: "parecemos com o gato no retrato da Dora Maar".



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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Tecnologias, Conhecimento e... nós

Comecei a me interessar por "informação", "história", "sociologia" (sim, entre aspas, que seu significado mudou muito a medida que aprendia e ainda tento entender...) e outras humanidades em geral depois de ler -como diversão- Isaac Asimov. O texto do Radhfarer, além de tratar de alguns dos meus favoritos (Spinoza, Goethe, et al...), me remeteu direto ao Asimov, sua Psico-História (em Fundação, por exemplo) e suas previsões sobre cálculos de reações humanas como ciência. E dai a uma outra velha discussão sobre os limites entre ciências e artes. Entre o exato e o fractal. O humano como um mosaico de mosaicos (de mosaicos...) e as ciências como a parede, a superfície onde eles estão.
O vaso que a contem.

Sim, uma outra perspectiva.
E, ao mesmo tempo, mostrar corretamente, que o conhecimento não é algo que pré-existe em local ou tempo. Ele é produto da relação feita, pontual e conscientemente, de informações. A soma de "pequenos discursos" ao que já sabemos (ou pensamos saber) e a mudança que isto acarreta em nós e no que poderemos fazer a partir deste ponto.


Não, não há receitas prontas. Podemos concentrar 10, 1000 ou 100000 pessoas no mesmo ambiente, mostrar a mesma informação e ainda assim, bem provavelmente, terás 10, 1000 ou 100000 conhecimentos novos diferentes. E a interação destas pessoas gerará muito mais. Cada qual aportando sua própria e particular versão.
Mude qualquer um dos elementos anteriores e o resultado todo muda.

Desde os "Baby Boomers" da pós-guerra, até hoje, vão lá uns 60 anos, quando muito. E hoje, ainda por cima, falamos em fenômenos sociais on-line, assumindo uma vida paralela comparada à off-line, à desplugada (unplugged) que acorda com o sol e se molha com a chuva. Expomos nossas crianças a babás digitais por falta de tempo, ou por perdermos o fio da meada do que deveria ser tecnologia. Ou então, o que ela deveria nos proporcionar; tempo. O tempo para construir-nos a nós mesmos. Para melhorar, aprender e relacionar-nos, uns com os outros, de forma melhor. Desenvolvemos tecnologia, ferramentas. Assumimos sua velocidade e cultura, e ainda nos assombramos quando vemos que nossos filhos se encaixam em descrições como esta:

"Os digital natives estão inseridos em uma nova cultura, em que a identidade é construída a partir de gostos e informações compartilhadas em grupos ou comunidades virtuais. Sua popularidade, seu impacto, é pautada pela quantidade de amigos virtuais, gadgets que possuem (bem como sua tecnologia) e placares nos jogos em rede."

E que digital natives poderia facilmente ser substituído por Geração X, Y, Z, n, sem o menor constrangimento. É só olhar para trás.

E neste processo todo, vamos esquecendo que aquela "vida unplugged" não deixa de ser, e estar, porque não prestamos a devida atenção nela. Desenvolvemos tecnologia, cada vez mais e mais rápida. Esquecemos, pelo caminho, de desenvolver a nós mesmos junto com ela. Podemos ter aprendido alguns truques, mas continuamos; "homem, o lobo do homem".
Podemos cometer erros garrafais, reconheçamo, mas não tencionemos -de forma alguma- fazer deles a base do nosso futuro.
E poderiamos usar isto como um chamado de alerta (heads-up, people!).

tic-tic-tic

Acho que esses temores toda geração têm os seus. Houve (não sei se aqui houve) quando o "temor da vez" era a leitura de histórias em quadrinhos. Que fariam nossas cabeças (confesso, eu era um ávido leitor!) deformar em pensamentos enviezados ou fora dos padrões ditos 'convencionais'. Liamos até a exaustão, trocavamos e re-liamos comentando como críticos tarimbados, esperando o próximo exemplar mensal.
Enquanto isso, a "vida unplugged" ainda seduzia com bolas, pipas, amarelinhas e piões.
Fantasia analógica de outros tempos.

A diferença era somente o acesso à tecnologia. E ela não aparece do nada. Fomos nós mesmos, aqueles dos quadrinhos, que criamos as condições para seu desenvolvimento. Que criamos as condições para seu acesso ser mais fácil. Que criamos as condições para seu replicamento viral! Acho que era esse o "temor da vez" de então; que nossas idéias enviezadas acabassem criando condições para mudar o mundo. Demos o primeiro pontapé, enquanto nossas idéias voavam e pulavamos etapas a rodar encurtando espaços.
Fantasia digital de novos tempos.

Parafraseando o Sr. Gonçalves (L.Radfahrer): "Como diz qualquer consultora de moda: "se não usou no ano passado, não vai mais usar."

Não tenho a menor ideia, simplesmente parou de funcionar.

Aos futuros pesquisadores restará refinar a surpresa daqueles outros pesquisadores que, logo após Colombo, perceberam que tinha sido descoberta a outra metade desconhecida do mundo. Desta vez, com o concurso da tecnologia; dentro de cada um de nós... onde, mesmo quem não participa, significa.


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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Visões de Ballet


O que você vê quando olha um campo de torres de distribuição elétrica como este?
Bem, isso depende...
Não sendo seu nome Alonso Quijano, depende muito do seu humor, seu tempo, sua profissão, sua atitude perante as coisas ao seu redor. Pode ver somente objetos inanimados transmitindo grandes quantidades de energia. Pode ver as forças da natureza sendo colocadas a serviço da sociedade. Pode ver linhas a estorvar sua visão da paisagem. Números e estatísticas, índices e projeções. Gestão e logística funcionando em paralelo.
Ao olhar o céu vê azul e nuvens de algodão ou somente a natureza parindo outra tempestade?

Se murmurar: "gigantes", se refere ao quê? Uma relação de tamanho ou mera magnitude de desempenho genérica? Gigantes se comparado com o quê?
O homem como referência, além de críptico, convenhamos, é narcisista demais.
Deixamos de ser o "Centro da Criação" quando pela primeira vez percebemos nossa própria insignificância se comparados com algo pequeno como a natureza que nos rodeia, por exemplo. Ao nos comparar com algo realmente grande, como o universo ao qual pertencemos então, essa insignificância deveria ser escrita toda em maiúsculas. Homem (como gênero, raça, ou raio que o parta) passa a quase nem ser, de tão pequeno. Mesmo a contragosto, nossas aspirações, sonhos, feitos ou problemas passam a ter uma dimensão minúscula quando em comparação com a rotina geral do resto das coisas.

O que diferencia nossas visões das visões dos outros é exatamente isso, são visões dos outros. As nossas são particulares e privadas. Só serão dos outros quando as explicitamos na dança do compartilhamento. Ali, elas assumem o tempo da música; vão do Andante maestoso até o Rimbambito iocoso, dependendo da recepção ou novidade.
Realidade ou verdade não são tão importantes assim.
Se prestar atenção, verá que vivemos num mundo adulto de faz-de-contas (de contas à pagar).

E as torres? As torres!

Sim, voltemos.
Nem gigantes de Quijano nem obstruções à visão de belezas naturais. Desse ângulo, me lembraram bailarinas num último ensaio, momentos antes da apresentação.
Um pastel impressionista feito a imagem a seguir.


ou esta do Crockians:


E você, o que vê la?




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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O que não é abstração


Pensamos re-fazer a ponte entre a percepção e pensamento. Temos tentado mostrar que a percepção consiste na captação de elementos genéricos relevantes do objeto. Inversamente, pensar, na medida de ter algo para pensar, deve ser baseado em imagens do mundo no qual vivemos. Os elementos do pensamento na percepção e os elementos perceptuais no pensamento, são complementares. Transformam a condição humana em um processo unitário, que nos leva sem falhas da adquisição elementar de informação sensorial às ideias teóricas mais genéricas.

O traço essencial desse processo unitário cognitivo é que a cada passo ele envolve abstração.
Então, a natureza e o significado da abstração deve ser examinado com cuidado.
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