sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Pequenos Reis, Pequenos Reinos (Metáforas)

Quando pequeno, me lembro, vivia rindo das peripécias do The Little King (não sei qual nome era dado aqui no Brasil) desenho de Otto Soglow, em 1933. Um reizinho pequeno, num pequeno reino, às voltas com a pompa e circunstância do posto.
Ele só queria se divertir.


Hoje, prestando atenção no que acontece ao nosso redor, poderemos ver pequenos reis e seus pequenos reinos a esbarrar com o nosso próprio.

O motorista que ultrapassa pela direita e é ainda capaz de 'empurrar' veículos à sua frente para ocupar, ele, um espaço.
E, quem percebe o erro no troco, mas guarda silêncio para ficar com a diferença. Quem quebra o vidro do estabelecimento para roubar peças e produtos que, em última análise, nem precisa. "Porque os outros estavam saqueando, peguei e agora devolvo contrito à delegacia do bairro".

Mas, ai do coitado que esbarrar no meu "direito de ser feliz", de ter o carro último modelo, ou de ganhar um salário maior que o meu. Ou, então pior, que tenha um objeto que (eu acredite seja) melhor que o meu, ganhe mais ou tenha uma casa maior.
Torna-se imediatamente, meu inimigo. Némesis social e político.

E falando em política, os políticos brasileiros, que desde o último golpe, e mesmo depois dele, continuam a se locupletar nas burras do governo, às custas do povo. Do pagador de impostos, do eleitor incauto, do aposentado e pensionista em fim de corrida.
Fim de linha-vida.



O ano de 2017 chegou a ser definido pelos próprios organismos oficiais como; corrupto, o "Ano da Corrupção". E ninguém do governo diz, nem se atreve a dizer, nada.
Pois nem essa boca come feijão, faz tempo. Agora só faz festa des "servilletes" na avenida Foucault.
Um pequeno rei de um pequeno reino.

Elite chega a ser tão definida quanto uma das castas brâmanes. Os oficiais dos três poderes democráticos, cada um mais que os outros todos, querem sua parcela de elite e definição.
Cada qual pequeno rei em seu pequeno reino.




domingo, 22 de setembro de 2019

Heston no domingo

Imagine a cena:
Moisés assombrado e cansado, descendo a montanha com as duas tabuletas da Lei, escritas a mão pelo próprio Deus, e dá de cara com uma festa, um festival, uma orgia de celebração, onde o povo beija que beija o cu de uma imagem de bezerro dourado ao  invés de recebê-lo com alegria.
Imaginem seu desapontamento. Só comparável com sua irritação.
- Se ele fosse Deus, nossa história teria acabado por aí.


Atirou as tábuas divinas e destruiu o tal bezerro! Só então parou, ao perceber o que tinha feito, teria que voltar e pedir cópias.
Ao próprio Deus!
Cópias da Lei!
Deus em tábuas! De pedra!
O povareu ficara sem bezerro dourado, destarte sem cu para beijar.
No vácuo.
Moisés, a subir a montanha, de novo, em busca de cópia das Leis.

E Deus vendo tudo isso, ao mesmo tempo.
- "Já sabia. Paciência.
Escrevo de novo e pronto. Desta vez deixarei a Lei da Gravidade de fora. Vamos ver quanto tempo leva pra eles entenderem a piada."
Vida que segue.
...


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Kilroy

Para aqueles que acreditam que dizer: "vamos ajudar o pessoal de Humanas vender miçangas", como verdade e piada, eis um conto:

- "Na grande festa de inauguração da pirâmide amastabada do faraó Quem-hé 1°, a primeira pirâmide da qual se tem alguma notícia documentada, o escriba Risca-i-vai, da Folha de Papiros, perguntou ao architecto:
- "Qual seu nome, o sumidade, por gentileza?".
Ao que o ente, semi-divino, suspirou, entre estaciado e embevecido com a magnitude da construção; "Im-nho-tep". Deu alguns passos e sumiu na multidão de convidados.
- "Ele disse: Im-o-tek ou Ino-pet?" - perguntou Giz-de-Cera o estagiário, escriba em treinamento.
- "Isso se escreve desenhando o Ibis antes ou depois do nenúfar?" insistiu o estagiário. - 
- "Sempre me confundo com a nova regra ortográfica". Mas, parou de perguntar num murmúrio, ao perceber o olhar do escriba Risca-i-vai.
Graças ao panteão de Deuses, o jovem Kheops, passou perto o suficiente para chamar a atenção do superior.
- "Principe, ó príncipe!"
Saíndo saltitante atrás de um novo furo.
- "Gazelas" - disse em voz baixa o estagiário, enquanto juntava papiros e tabuletas para ir atrás do chefe. Não sem antes garatujar na parede do novo monumento, sua marca registrada:


Como disse antes Saint-Exupery, um outro escritor de "Principes"; "o essencial é invisível aos olhos".


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A obsolescência, a incompatibilidade e o documento que você acabou de criar

Estamos parados na soleira do tempo. Até agora ficamos acumulando informações, enquanto o mundo lá fora continua a mudar. Ter informação deixou de ser diferencial competitivo, característica do Século XX. Hoje, nas primeiras décadas do século, quem não souber se ajustar aos ambientes/contextos fluidos, que esta informação cria -eis a caraterística do Século XXI- estará perdido. O Século XXI é de aprender a lidar com as incertezas.

Quer um exemplo?
Pesquisas realizadas pelo IDC (International Data Corp.), EUA, no princípio dos anos 2000, revelou que um executivo gastava quase quatro semanas por ano procurando documentos. Faziam-se, em média, 19 cópias de cada documento. Com isso, os escritórios criavam algo em torno de 1 bilhão de documentos (em páginas de papel) por dia. Esse total era constituído de 600 milhões de páginas de relatórios de computador, 234 milhões de fotocópias e 24 milhões de documentos diversos.
Isso, somente nos Estados Unidos.


Em termos quantitativos sabemos que quinhentas páginas de texto requerem 1 megabyte (MB). Um gigabyte acomoda 20 mil imagens. Um arquivo de quatro gavetas, com 2.500 folhas de papel por gaveta, comporta, em média 10 mil imagens de documento. 
Diante disso, definir o que deverá ser preservado, para quê e com que finalidade é o objetivo das instituições que querem garantir sua permanência em cena, sem serem engolidas por todo este volume de informação e, em muitos casos, em suportes de papel.
Hardcopies.

Um dos grandes paradoxos que vivemos é que, como uma sociedade que produz tantos registros pode correr o risco de passar para a história como uma cultura quase sem vestígios, já que a maioria dos documentos digitais nascem e são eliminados sem ser armazenados, ou passar para outros suportes. Memórias digitais em busca de eternidade.

Gestão (holística) de informação.
A maioria das instituições cria diariamente grandes quantidades de documentos, informação e dados, de vários formatos e suportes, e logo depois não sabe o que fazer com eles. E, quanto mais desligado, ou afastado, da tecnologia esteja, o usuário-criador, não saberá, nem sequer, onde está guardada a informação que precisa. E ele mesmo a criou.
Digital não é algo que simplesmente se possa comprar e instalar nas organizações.


Sempre se disse que informação é poder. Mas cada vez mais, esta informação, vem de diferentes fontes e as organizações que não souberem como organizar, processar e distribuir este potencial de conhecimento, estarão relegadas ao plano da mera repetição, sem capacidade criativa, capacidade de inovação. Muito da sua vantagem competitiva será perdida. E todo aquele poder, será mera ilusão teórica.

As informações que antes nos chegavam apenas de forma analógica (em papéis, microfilmes, plantas, projetos, fotografias), nos chegam em quantidade e em todo tipo de suportes. Rapidamente!


A cultura de consumo e produção excessivas criou um culto ao descarte e a voracidade tal que impossibilita atividades simples como o reter, e o guardar para o porvir.
Quem cuidará dessa herança? Onde e como será guardada? E as informações em suporte digitais? Quanto dela sobreviverá às perdas inerentes da obsolescência galopante de máquinas, equipamentos e arquivos de que são vítimas? Mesmo as regulares atualizações de sistemas operacionais?
Alguem ainda lembra, ou sabe o que foram, os Zip drives, ou os floppy disks (disquetes)?

Como tratar do volume e dispersão de produções individuais, sociais ou institucionais, perdidas em uma malha digital? Como estabelecer critérios e políticas de seleção, uso, guarda e descarte de documentos analógicos e suas informações? Como otimizar recursos humanos, financeiros e tecnológicos? Como distribuir esta informação de modo a potencializar conhecimento e inovação?


Ampliando a discussão...
Na introdução de seu livro "Arquivos para quê?", o arquivista francês Bruno Delmas (2010, p. 17), antigo diretor do Arquivo Nacional Francês, faz um breve relato de quando Françoise Giroud, então nomeada Secretária de Estado da Cultura na França, pela primeira vez encontrou com diretores de várias instituições de sua pasta, demonstrando conhecimento sobre cada uma delas, ao interpelar o então diretor do Arquivo da França, perguntou: "senhor diretor-geral, arquivos servem para quê?" Para Delmas (2010, p.18), tal pergunta é reveladora do desconhecimento que a grande maioria dos políticos, da mídia e dos intelectuais tem a respeito dos arquivos, da sua natureza profunda, dos múltiplos usos".

Não só o documento à sua frente que se perde nessa malha, mas, milhares de documentos acabam indo pelo mesmo -e desconhecido- caminho. E se perdem. Ninguém mais os encontra.

E ainda temos um outro paradoxo, que dificilmente é levado em consideração. Jevons o explicitou ainda no século xix, mas pode ser aplicado à quase tudo. Resumindo, ele diz que: "o progresso tecnológico aumenta a eficiência com a qual um dado recurso é utilizado (reduzindo a quantidade necessária para qualquer uso), mas a taxa de consumo desse recurso aumenta devido à demanda crescente".


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domingo, 11 de novembro de 2018

De Monstros e ninguém mais

A primeira vez que escutei falar em "stakeholders", imediatamente me veio à cabeça a imagem de uma turba ensandecida, correndo aloprada e gritando com tochas e paus (os tais 'stakes') atrás de algo bem diferente de tudo o que eles conheciam.
Um monstro!

Hoje, me dizem que não, não são monstros aloprados, nem turba ensandecida. São as 'partes interessadas', o 'público estratégico', os 'interessados indiretos', e os principais causadores dos maiores transtornos aos cronogramas e especificações dos projetos. Prosumers, produzem e ao mesmo tempo consumem a produção de notícias e comunicação. Uma força quase que incontrolável e muito imprevisível. Uma Hydra, onde o erro se reproduz a cada cabeça cortada muito mais rapidamente.
Hmm...


Tenho que me desfazer desta minha impressão do texto da Sra. Wollstonecraft Shelley, e ao mesmo tempo criar um novo escaninho para a definição de "stake". Para mim, o tal monstro não é culpado de nada, mas os stakeholders (and screamers), por outro lado, sim.

Desde os tempos do DOS 2.0, e dos batch files, de comandos simples e univocos que carrego um pet peeve contra os tais stakeholders. Várias vezes cheguei a reclamar com o "El Supremo", um dos meus chefes da época: "Esses PhDs wannabes têm dez dedos nas mãos e conseguem apertar onze teclas ao mesmo tempo! Nenhuma delas a tecla certa!".
RRB olhava para mim, e sorria.


Hoje as coisas mudaram um pouco. Hoje, as personas nas sombras, os prosumers de redes, escolhem sem medo de identificação. Sim, aquelas que insultaram no estádio, furaram as filas, erraram no troco, dançaram com o pato, mentiram e ameaçaram em grupo. O que, não sei por qual motivo, me leva a lembrar umas rimas mexicanas do século xvii, onde Juana Inês de la Cruz diz:

"(...)
Parecer quiere el denuedo (Parecer quer a ousadia)
de vuestro parecer loco (de sua opinião maluca)
al niño que pone el coco (à criança que veste a fantasia)
y luego le tiene miedo. (e depois fica com medo da cuca)
(...)"

Espero que estejam confortáveis para a viagem que faremos a seguir. Teremos caminhos difíceis à frente, e sua rede... pode cair.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Odeio Crawl


Enquanto nado me pego a pensar; "como não gosto de crawl".
Minha respiração, que normalmente não é muito boa, é ainda mais dificultada pelo médio e minha falta de treino no exercício. Além do mais, chego a constatação de que, se tiver que nadar para salvar minha vida, bem provavelmente, irei morrer no meio da empreitada.

Se soltarem um tubarão na piscina, não irei melhorar minha performance, e ainda terão que trocar a água toda, pois não penso sair graciosamente.
Deste morto eles lembrarão por um boooom tempo!
Minha velocidade na piscina só melhorará quando tirarem toda essa água que me atrapalha.

Engraçado que nadando de costas consigo ir de um lado ao outro sem problemas. Nem penso no assunto. De fato esvazio a mente, e consigo pensar em outras coisas. Como, no quanto não gosto de crawl.
Por exemplo.



...


Tai, não falei em política, nem fiz proselitismo.
Viu?

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Da Metalinguagem nos Quadrinhos

Lembrei, nem sei bem porque, desta monografia que fiz ainda na Idade da Pedra (na ECA-USP, no final do século passado). Achei engraçada e inocente (era jovem, cheio de ideias e imortal).
Transcrevo aqui.
I warn you, brace yourselves!




Jé suis la Sarah Bernhard de la bande desinée!


Introdução

Dentre todos os temas apresentados no programa de Estética, temos escolhido este: A Metalinguagem, por acharmos que é algo que está, entre aquilo que comumente chamamos de óbvio e, ninguém lhe presta a menor atenção.
Consideramos que a metalinguagem seja mais importante do que aparenta. Tão importante que não há estudo ou crítica que prescinda dela. Sem ela a crítica não existiria - o que de fato acontece, mas ninguém consegue enxergar - onde só existe uma metalinguagem artística. Outra característica da metalinguagem é que ela consegue traduzir, se não na integra a maior parte, de qualquer linguagem a uma só.
Poderia inclusive, ousando um pouco, abusando da schutzpa, definir o que é linguagem e o que não é, pela sua presença. Ou não. Frisson nos Gestalticos.

Para ter mais ou menos uma visão geral do que seja metalinguagem, referimo-nos a escritos sobre semântica e linguística (dos quais fizemos maior uso dos estruturalistas) entre eles o "Curso de Linguística Geral" de F. Saussure, de onde pesquisamos os estatutos da linguagem, e "Elementos de Semiologia" de R. Barthes, onde fomos atrás da definição dos sistemas significantes que, junto com os anteriores nos definiriam o tipo de linguagem das expressões artísticas, ignorantes da polêmica que esta tem gerado entre os círculos teóricos.

Fizemos uso também de alguns livros sobre técnicas de pesquisa na história da arte (Nessi) e outros sobre análise de quadrinhos, nosso maior fornecedor de exemplos metalinguísticos (Cirne).

Definimos o termo: metalinguagem e logo após fizemos uma classificação, um tanto rudimentar dele enquanto uso dentro das artes plásticas em particular. Não fizemos muito tempo dentro de cada item para não forçar o tema e para que não nos tornássemos monótonos e cansativos, mas nem por isso fomos lacônicos em nossa apresentação.

O único item que talvez precise de um pouco mais de informação seria o de linguagem da arte, por isso, seria conveniente dar um lida nos escritos de Kosuth, Pignatari, Jackobson e Garroni (sobre cinema e arquitetura) e, talvez se fosse possível, dar uma lida na monografia: "A Arte é Linguagem?", apresentada para esta mesma cadeira.

Veja bem que isto não significa uma concordância total com todos esses autores, em todos os aspectos, mas é muito melhor ter uma base informativa própria para poder, com melhores circunstâncias, chegar a uma conclusão subjetiva neste ponto.

Sobre Linguagem

Para a existência da metalinguagem deverá existir um código comum aplicável a todos... neste caso a linguagem.
Mas, até onde chega este código comum, esta sua aplicabilidade - sua codificação-decodificação-recodificação - nas artes visuais?
Explicaremos para eventual aplicação, em relação à metalinguagem, no que consiste e, se na realidade, existe uma linguagem nas artes visuais. (1)

O que é linguagem?

A linguagem, em Saussure, precursor dos Estruturalistas, é uma faculdade, um fato social. Mas, isto não responde nossa pergunta anterior. Deveríamos então perguntar em que consiste essa faculdade ou, como se dá esse fato social?
Ora, essa faculdade consiste na língua (2) e na fala (3). E, o fato social se dá, cada vez que se estabelece comunicação entre dois ou mais indivíduos.

Resumindo, podemos dizer que a linguagem é a união de língua e fala, posta em prática. Mas esta afirmação não é unívoca, por isso "deve haver outras formalidades aliadas à estas duas", para que o ato da comunicação, ou pelo menos a apresentação de qualquer informação banal, possa ser realizada efetivamente.

Consideramos como necessários os três fatos seguintes:


Cumpridas estas três formalidades, a comunicação social seria possível.

Nesta segunda parte, onde encerramos o primeiro item da monografia, trataremos sobre a arte na linguagem e a linguagem da arte, parecerá a primeira vista um jogo de palavras, mas existe uma grande diferença entre esses dois enunciados. Tanto do ponto de vista de estudo como prático, como eventualmente tentaremos expor.

Arte é Linguagem?

A denotação de arte, apresentada pelo dicionário é a seguinte (4):


Lida, a explicação não se encaixa com o conceito atual do que seja "arte". A arte (global) deixou de ser uma procura de sensações, uma vez que dá margem para múltiplas soluções conotativas. Mas, isto não implica a inexistência de sensações causadas pela arte... muito pelo contrario, a engloba junto com toda uma série de respostas conscientes difíceis de delimitar umas das outras.

Podemos afirmar que a arte não é mais a sensação do belo somente; deixou de ser isto para se transformar. Que digo transformar? Se afirmar nela mesma!
Deixou de ser representação para ser seu próprio objeto!

A linguagem da Arte

A semiologia de Barthes, tem com uma das suas tarefas pesquisar se a arte é linguagem.
Efetiva seu objetivo mediante o estudo dos conjuntos significantes entre os quais a arte e a linguagem se inscrevem. Para isto vê-se forçada a introduzir as distinções, os campos, que se impõem entre as linguagens e os outros sistemas de signos.
Dufrene, faz uma classificação sumaria desses campos semiológicos (5):


Estes três planos, é claro, não estão rigorosamente separados; o mesmo conjunto significante pode se estender sobre os três, mas se articula, principalmente sobre um deles.
A arte é a representante do campo supra-linguístico.

A arte é - isto é - não é, considerada como uma linguagem por certos autores, mas, é tão descontraída que não apresenta afasia nenhuma, nalgumas de suas manifestações mais simples. (6)

Sobre Metalinguagem

Agora, nesta segunda parte do trabalho, trataremos mais sobre metalinguagem do que linguagem. Metalinguagem esta, vista nas expressões artísticas. Primeiro, uma visão do que é metalinguagem para vários autores, e depois, uma amostra das operações metalinguísticas nalgumas manifestações artísticas (tomaremos como exemplo as histórias em quadrinhos).

O que é metalinguagem, segundo alguns autores

Uma distinção foi feita na lógica moderna entre dois níveis de linguagem: a "linguagem-objeto", que fala de objetos e a metalinguagem, que fala da linguagem.

Além de instrumento científico, utilizado por lógicos e linguistas, a metalinguagem é usada cada vez que for preciso testar o código que está sendo utilizado numa atividade comunicativa básica, diz Jakobson (7). Mas, esta definição não poderia ser aplicada indiscriminadamente, isto é, fazendo uma generalização dela como um todo nas artes, uma vez que existem manifestações artísticas "sem resposta" evidente (8).

Para Nessi, metalinguagem, são os sistemas simbólicos nos quais está baseada a obra de arte.

Pignatari define a metalinguagem da seguinte maneira: "a metalinguagem é a linguagem com que se estuda, é a linguagem instrumental, crítico-analítica, a que permite estudar a linguagem-objeto sem com ela se confundir". Ou ainda: "quando a linguagem-objeto se volta sobre si mesma, ela tende a ser metalinguagem, beneficiando-se da fenomenologia. Este fenômeno é particularmente notável nas revoluções artísticas e de design (Dada, Neoplasticismo e Pop, nas artes visuais). A metalinguagem é um processo dinâmico, mas é comum ver como ela tende a se estratificar em código, confundindo-se então com o jargão técnico especializado" (10).

Enquanto que, para Cirne, a metalinguagem é: "a crítica exercida sobre o produto artístico ou científico (linguagem-objeto), mas pode também ter outros níveis semióticos".

Dentro do mesmo livro de Cirne, encontramos ainda duas definições atribuídas a Barthes. A primeira: "a linguagem-objeto é a própria matéria submetida a investigação lógica; a metalinguagem é a lingugem forçosamente artificial, na qual se procede esta investigação".
E a segunda, é aquela que tmbém encontramos no "Elements de Semiologie", onde a metalinguagem é um sistema no qual o pleno conteúdo, ele próprio é constituído por um sistema de significação; ou ainda uma semiótica que trata da semiótica".

Os outros niveis semióticos da metalinguagem citados por Cirne são:


Estas definições, que consideramos anteriormente, não podem em geral ser aplicadas à arte sem antes ter considerado a diferença que existe entre a linguagem propriamente dita e a 'expressão plástica'.

Para isto, dividimos este segundo item em dois. Acabada esta primeira parte, passamos à aplicação da metalinguagem nas artes... tomamos para os exemplos, os desenhos em quadrinhos.

Como se dá a metalinguagem na Arte?

Como vimos anteriormente, a metalinguagem é a linguagem falando da linguagem. Nas artes visuais seria algo mais ou menos assim: a arte falando da arte.
Como?
Dentro dos exemplos que temos escolhido, notamos três formas, ou poderíamos dizer, níveis de ação metalinguísticas:

 
A arte falando da arte (exemplo 1): neste caso, os quadrinhos falando dos quadrinhos, onde se faz uso de todos os elementos característicos (desenho-texto-sequência-etc.) à forma global da expressão.
Uma das maiores características desse tipo, em particular, de metalinguagem é a apresentação de um paramundo, onde existem, eles - os personagens dos quadrinhos - a meio caminho entre o espectador/leitor e o quadrinho (ambiente onde a ação acontece) propriamente.

Exemplo 1


A participação do autor, direta ou indiretamente, na trama: Um exemplo disso nos dá Cirne quando fala de Hergé participando ativamente da ação de "Les Grands moyens" (11). Encontramos também um exemplo (exemplo 2) dentro dos quadrinhos nacionais. Carlos Chagas, desenhista do 'Nestor, o vampiro' na revista Klik!, quando em determinado momento apaga um dos personagens a pedido do próprio Nestor (12). Ou, inclusive, como acontece na mesma revista na página seguinte, mas isso deixaremos de lado (13).

Exemplo 2

A consciência dos personagens (ou objetos) de sua qualidade - isto é - do que realmente são. "Consciência" esta, alcançada mediante a referência do autor por parte dos personagens da história (exemplo 3).

Fazendo uma analogia dentro desta classificação poderíamos considerar alguns autorretratos como participantes desta classe.

Exemplo 3


A diferença entre esta duas últimas classificações é mínima, tanto que, às vezes, não é possível uma distinção definitiva dos exemplos.
Nos exemplos citados por Cirne, no capítulo referente à metalinguagem e quadrinhos, faz uma classificação da segiuinte maneira:
  1. a exigência de uma participação do consumidor;
  2. a reflexão sobre a essencialidade
que correspondem, na nossa classificação, aos itens 2 e 3. No seu livro "A linguagem dos Quadrinhos", Cirne apresenta maiores exemplos de metalinguagem, especialmente dentra das produções de Maurício de Sousa e do Ziraldo.

Nas outras manifestações artísticas, estas classificações da metalinguagem podem ser applicadas diretamente, como no caso dos autorretratos explicados anteriormente.

Considerações Finais

Num tema como este, consideramos que não pode haver uma conclusão definitiva, jamais. Sempre haverá uma nova ponderação, um ponto de vista, outra conclusão. Ainda há muita coisa a ser feita, muitos pontos contraditórios, enfim. A semiologia que deveria estudar os sistemas significantes chega a um impasse devido aos detratores das conclusões apresentadas, tanto pró- quanto contra, às definitivas definições dos campos ditos infra- e supra-linguísticos.

Como é possível a existência de uma metalinguagem dentro de um sistema que não é linguagem? Isso é um dos pontos contraditórios que avançam conosco durante toda a monografia.  Pode-se dizer que trabalhamos à sombra dessa premissa. Nosso trabalho devia ter-se cifrado numa definição maior desse ponto, o que foi impossível, por isso usamos subterfúgios e conscientemente "ignoramos" essa pergunta, de tamanha importância, que ela só daria e valeria monografia inteira.

Por tanto consideramos a monografia inteira, como uma visão sumária do que é a arte, sua linguagem e da metalinguagem e até onde pode ser aplicada.

Talvez, também, tenhamos feito afirmações ousadas demais e que depois deixamos sem explicação. Os exemplos dados talvez sejam considerados banais, sem importância nenhuma como forma de arte; mas para os efeitos das operações metalinguísticas, eles são simples, contundentes e o suficientemente sólidos na sua argumentação como para ganharem o lugar que ocuparam.

Mas, a pergunta ainda está de pé: é ou não é, uma linguagem a arte? Ou ainda, funciona a arte como uma linguagem?
Temos considerado o assunto, e decidimos que sim. A arte É e funciona como uma linguagem; só que com uma ressalva, não é igual (nem utilisa os mesmos canais) à linguagem propriamente dita

Se brincassemos um pouco com as palavras, à definição seria assim: "é uma linguagem como a linguagem, mas não como linguagem".
O que mais parece afirmação de Ad Reinhardt, quando diz: "Arte como arte não é mais que arte. Arte não é o que não é arte".
O que parece mais uma "arte".

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Referências
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