sábado, 17 de janeiro de 2015

A Panacéia* da Cidade Jardim

Desejamos uma cidade que seja ecologicamente sustentável, com recursos infinitos e -preferencialmente- plana, pois não queremos ter que subir morros.
Grandes alamedas arborizadas, com árvores que não desfolhem, assim não teremos porque limpar. Que o canto dos pássaros reconheça horário e nossos gostos particulares por música de nenhuma qualidade.

Que a chuva, quando a chuva vier, seja leve e fresca. Que molhe as plantas e refresque o sono. Os rios e regatos sejam fotogênicos e sem pernilongos. Onde a natureza seja reconhecida como integrante em seus desenhos, e com ela, sejam repartidos espaços e habitares.
Uma cidade rápida e vistosa, perfeita, como se saída de uma ilustração do Rockwell (para aqueles que saibam quem foi Rockwell).



Uma cidade onde o destino do consumo seja planejado junto com a produção e a distribuição. Pois tinhamos a mania de jogar tudo fora sem pensar nas consequências. Onde a educação seja aplicada como parte do processo social inerente às famílias e grupos comunitários. E esses processos incluam consciência social suficiente para que "polis" seja reconhecido como parte do individuo. Não estaremos sós em qualquer situação.
Eliminando limites entre ciências e saberes.

Que seus cidadãos sejam recebidos com a alegria do começo, e se despeçam sem a tristeza da perda, mas como fim de fase. E que, entre um e outro evento, sejam tratados com o respeito que merece qualquer ser vivo. Pois a cidade vive del@, como el@ da cidade. (São)Versões de um só individuo, uma mesma entidade com a terra à qual pertencem.



Uma cidade que se assemelhe a um sistema aberto, sempre em mudança.
Que tolere e assuma situações novas e que ela mesma seja capaz de criar tais situações. Que se relacione com as outras cidades em torno como se relaciona com seus habitantes.
A tecnologia não petrifique seus processos. Nem as leis que impeçam de fazer o que é certo. Que não permita abusos de um, nem de muitos.

Que mais do que justa, permita oportunidades iguais para todos. Mas, de modo algum, seja leniente com contravenção nem crime. E, quem estiver disposto a testar seus limites esteja também pronto a arcar com as consequências. Onde ninguém seja mais igual que os outros.



Onde a participação seja mandatória até se tornar lugar comum. As opções sejam fazer o bem e reparti-lo entre todos. 

...

Utopias!

...

Participava do blog da Professora Rolnik, sobre urbanismo, e aumentava minha percepção de como os habitantes das cidades vem a si próprios, separados do ambiente onde vivem. Até brinquei: "Como gotas num oceano", todos iguais no mesmo lugar e completamente isolados. Por incrível que pareça a culpa sempre é do outro, estranha a ele. Rios inundam por assoreamento, deslizamentos de terra e soterramentos após breves chuvas, cujas águas não têm escoamento. Rios retificados na marra, cheios de lixo humano e seus leitos naturais ocupados por habitações. A cidade e áreas habitadas mal dimensionadas e sem respeito à natureza local. Meio-ambiente e ecologia, pouco mais que uma bandeira filosófica, reféns de interesses econômicos.

Cansa ver o resultado do cimentado progresso e apinhada urbanização, quando enfrenta uma fração do poder da natureza. Devemos ser gratos pois não vivemos em região de monções.

E, então há o detalhe da grotesca incompetência na gestão política... onde as árvores impedem a visão da floresta.
De repente é o calor em SP...


Panacéia


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