domingo, 8 de maio de 2016

Visionários

"(...) os leitores de ficção científica estão preparados para muitos futuros".
CARD, Orson S. "Science Fiction in the 1980s"

Jules Verne (o homem que inventou o futuro), Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur Clarke, H.G. Wells, Ursula K. Le Guin e uma enxurrada de outros autores de ficção científica viram e imaginaram o dia-a-dia do futuro.


Por isso, previsões de futuro, no passado, são agora, o presente!
Eles falavam de nós. Previam que, como sociedade, iríamos melhorar. Gentil e inocentemente contavam com isso.

O que vemos hoje são, na maioria, previsões catastróficas e cenários apocalípticos. Contamos com que pioraremos, ainda mais. Não nos bastaram as guerras e conflitos, pelos motivos mais ridículos, que já tivemos e continuamos a ter. Transformamos tudo e todos em opositor, em mercados ou, aproveitando os avanços tecnológicos, em redes.

O opositor
Não entender o que falas, não te transforma automaticamente em meu inimigo.
Cores, línguas, histórias e cultura não nos fazem lá tão diferentes. "If you prick us with a pin, don't we bleed? If you tickle us, don't we laugh?" disse o bardo de Avon, em sua peça ao referir-se aos outros. Somos primos afastados numa casa esférica, mais cedo ou mais tarde nossos caminhos hão de se cruzar.
Se prestarmos atenção, veremos que caminhamos juntos em direções mil. Acompanhamos o mesmo dia, o mesmo sol, as mesmas estrelas. As nossas canções (a não ser os martelos Balineses e as arapongas) cantam as mesmas coisas.

O mesmo DNA comum para todos.

A média mundial de idade subiu de 52 anos em 1964 para 70 anos em 2012. Em alguns países, como Japão, Suíça e Austrália, já está em 82 anos. Graças aos avanços na medicina, e ao pouco senso comum que insiste teimosamente em nos acompanhar. Aumentaria a qualidade, não tanto a quantidade, de anos se o bom senso que nos acompanha fosse ouvido com atenção.

O opositor somos nós, não se iluda.

De mercados
Com o apoio da tecnologia, hoje sabemos, ou podemos descobrir fazendo as perguntas certas, quem faz o quê e onde o faz. Quanto custa e, às vezes, quais processos são necessários para planejar, produzir e inovar a partir desse conhecimento.


Abandonar as ideias de carros-voadores e viagens interplanetárias no século XXI, nos parece óbvio quando percebemos que, ainda em 2016, não temos nem mesmo saneamento básico nem saúde igual para todos. Não somente no Brasil. Mas como uma característica mundial.
O mundo e a tecnologia podem estar cronologicamente  no século XXI, mas o homem ficou para trás, no século XVIII.

Das Redes
A aplicação das ciências nos trouxe, hipnotizados pelo som da flauta, até onde estamos.
Ainda criamos expectativa em nossos herdeiros, que não mais concebem um mundo sem tecnologia. Se divertem criando apps para celular e loop-holes para hacks. Param somente ante o "cannot divide by zero" e, como num labirinto, viram as costas e começam a andar a esmo, sem mais pensar no assunto.

Ao submetermos nossas crianças ao domínio da tecnologia, pois esta, ao dominar-nos (sim, preste atenção!), também nos limita o tempo que temos para conviver com elas, assumimos que os crie à nossa imagem e semelhança. Esperamos e cremos piamente, que os valores civilizatórios, atávicos e inerentes à raça humana sejam ensinados, transmitidos, mostrados à página em branco de suas mentes infanto-juvenis. Desde as tragédias dramáticas do Chapeuzinho Vermelho e da Odisseia até os maniqueístas dramalhões bíblicos da tradição judaico-cristã. Criando desta forma, suporte e continuidade para o que convencionou chamar-se de: humanidade.


O que temos visto, como resultado dessa exposição desenfreada é um gamefied melhor de três. Onde o importante deixa de ser a tentativa e passa direto à orgia do caos. Podemos fazer (e dizer) qualquer coisa, sempre e quando não percamos uma vida. Amanhã ao acordar, arrastados e esperneando, faremos de novo, com outras novas três!

Parece que, após duas guerras mundiais e armas de destruição em massa, perdemos a inocência e ficamos tristes... Surpresos e assustados com o que somos capazes de fazer com nossos semelhantes.
E, para nos proteger, fingimos que é um jogo. (Eles) São números numa tabela, estatísticas isoladas, como índices epidemiológicos de incidência e mortalidade de mundos que nunca conheceremos.
Coisas a toa, sem importância.

As visões de exploradores, curiosos e ousados dos autores visionários enunciados foram trocadas por livros-caixa onde tudo é medido a KPIs, metas e produção. Como disse antes, em outro post: "a tecnologia que devia dar-nos asas, nos impõe grilhões".

Pare de correr atrás do próprio rabo, pense um pouco e... liberte-se.



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