domingo, 13 de dezembro de 2015

Tempestades e Copos d'água

Infantilmente me surpreendo quando, pensando em nada, percebo padrões ou imagens que parecem invisíveis aos olhos dos outros. Antigamente me assustava e fazia questão de esquecer ou fingir que não vi. Hoje, bem mais velho, aceito, e curioso presto atenção enquanto mantiver meu interesse.
Pouco tempo depois esqueço... pouco poderei fazer.





Ontem, prestei atenção na avalanche de notícias que me/nos atingia sobre o "Escândalo da Volkswagen" e suas intercorrências (o pedido de desculpas e a demissão do presidente da empresa nos Estados Unidos, o questionamento do uso de diesel, etc.) mundiais. Intrigado, comecei a pesquisar e pensar no assunto.


Ao mesmo tempo pensei no alcance da Volkswagen, o tamanho da empresa, os interesses que atinge ao redor do mundo. É uma empresa muito grande. Quase todo mundo usa seus produtos vez por outra. O alcance desse escândalo iria além-fronteiras, e não se deteria somente nos Estados Unidos.

Alguém deve ter pensado neste esquema. E esse alguém deve ter saído, não dentre os gestores-diretores-administradores, pois estes mal pensam em e pouco sabem como funciona um motor a combustão, em como o veículo é usado, nem as relações do uso do veículo com todo o resto (meio ambiente incluído). As relações de emissão de poluentes, subprodutos da combustão interna do diesel. A ideia para estes aparelhos anexados aos motores e os processos executados por eles para fingir a redução da emissão, não saiu da diretoria. Foi uma proposta aceita pela diretoria, sim, como genial na sua simplicidade e economia.
Mas, além disso; nada.
Inocentes por ignorância. (Onde já escutei isso?)



A solução veio de baixo... minto, do meio na hierarquia empresarial.
Algum engenheiro gaiato da P&D, dos tantos que há na Volkswagen e na BMW pelo mundo afora, confrontado com o desafio de reduzir as emissões, sem perder o desempenho, mudou um pouco a pergunta. Foi, inocentemente de: "como reduzir emissões poluentes sem perder desempenho" a "como fazer com que o motor reduza emissão em determinadas condições" (no teste de emissão de poluentes, por exemplo).

Para um engenheiro-mecânico essa é uma proposta infantil de tão fácil. Poder ia-se, com o mesmo expediente, fazer com que o condutor-proprietário do veículo, fosse avisado de problemas de desempenho e, destarte, maior emissão de poluentes. As luzes todas do painel de controle do veículo estão aí, exatamente, para isso; avisar das condições do veículo.

Não se perderia nada... ou pouco, em termos de tempo na oficina para ajustes e troca de componentes.
Todos os motores da Volks do mundo, um serviço gentilmente oferecido pela Volks aos seus clientes!
Mas, não... é muito mais fácil e barato ser esperto. Afinal, quem iria descobrir?



Foi uma proposta aceita pela diretoria, sim. Mas, a proposta, a solução, veio de baixo... não de baixo, veio do meio da hierarquia empresarial. Algum engenheiro pensou; como fazer com que os motores poluíssem menos. Deve ter apresentado a ideia no seu grupo de práticas, no departamento de P&D. E devem ter lançado essa questão mundialmente, todos os motores do mundo fariam a mesma coisa. A solução viria de alguma parte. Teria que vir.

Para reduzir sumariamente a emissão de poluentes do motor a Diesel há fórmulas matemáticas para conceber. Mas, essas mesmas fórmulas dizem que os motores ficariam muito mais fracos, poderiam fazer menos.

Aí veio uma outra pergunta: "como fazer com que os motores poluíssem menos mantendo a mesma potência?" Alguém deve ter pensado nisto daqui e, pensando, pensando, modificou sutilmente a questão: "como diminuir as emissões aos padrões exigidos nos testes?" e "como fazer com que os motores reconhecessem o teste de emissão?" Para um engenheiro mecânico, que somente trabalhe com motores a diesel, esta ideia não é assim tão descabelada, é possível.
Não é possível?

Uma ideia simples porque apesar de, nós míseros mortais, insistirmos em pensar no automóvel como uma entidade única, para um engenheiro -mecânico, ainda por cima- ele chega a minúcias de arruelas de pressão, por exemplo. A falta de uma arruela de pressão, diminui ou aumenta o desempenho do veículo. A questão de o teste ser mecânico, reduz a complicação para alguém que esteja acostumado a testes mecânicos. Não se modifica o motor, não se modifica o consumo, se cria um programa que, dadas as condições do teste de emissão de poluentes, o motor inteiro funcione diferente. As emissões de gases subprodutos da combustão a ser mensurados pelo teste são reduzidas, passa-se no teste. As condições voltam ao normal... o motor também. Para um engenheiro-mecânico, isto daqui ele faz (ou deveria saber fazer) dormindo.
Se não consegue fazer essa equação é melhor mudar de profissão.

Quer ver um exemplo simples?
O motor do Bentley Continental, modelo inglês, tem 8 (oito) pistões. Um dos maiores e mais potentes motores no mercado. A baixa rotação, ele automáticamente desativa 4 (quatro) desses pistões. E, ninguém dá pela coisa. Precisando de mais potência, ativam-se os pistões desligados e pronto. Coisas de rpm.. (Veja as especificações do motor aqui.)


Mas, voltemos à Volkswagen.
Os engenheiros têm a solução. A Volks obtêm vários produtos a partir dela.
Primeiro, e mais importante: marketing. "Os motores da Volks emitem menos poluentes, façam o teste." Hmm... só isto daqui poderia aumentar as vendas. Ver as vendas como um problema, é uma forma de ver toda a administração de uma empresa como a Volks. Manter essa estratagema, ardil, essa fraude é que são elas.
Se não me engano, a Fiat italiana, está fazendo propaganda na televisão de um veiculo que muda as características de funcionamento do motor ao girar de um botão. E, ninguém se pergunta, até onde esta adaptação poderia chegar?

Todos os motores iguais, resolvido o problema. Tanto que não dão pela coisa quando pedem para testar motores em ambiente controlado. Ambiente como o que acontece no teste de emissão de poluentes, por exemplo. Algumas trapaças mal deixam rastros, dizem Levitt&Dubner.

A estratagema foi descoberta acidentalmente, por comparação. O diretor da Volks pediu desculpas, o diretor da Volks foi demitido um dia depois do pedido.
Um tapinha nas mãos da Volkswagen e nada mais. Não precisa de nada mais. A indústria alemã está ali para isso.

Por outro lado, e bem mais perto da gente.
Desde pouco antes da reeleição da (Re)Presidenta Dilma Rousseff, e muito provavelmente por causa disso, está em curso o que se passou a chamar de "Operação Lava Jato". Que começou como rotineira investigação de lavagem de dinheiro e se transformou em uma entidade política, em assunto de discurso, e até em ponto de estudo jurídico. Alguns chamam de "vergonha internacional" (pessoalmente, não concordo). Vários países passaram por aqui. Aceito mais como depuração que defeito. Itália teve suas "mani pulite", e muito antes disso, um governador da NY, certa vez, chegou a afirmar: "É finita la cuccagna!". Mas todos esquecem.

Alguns acham que isto é produto local, como se o ser humano acontecesse somente no Brasil.
Se transformou num processo de corrupção, onde empresas privadas e a diretoria da maior empresa estatal, a Petrobrás, estão diretamente envolvidos. Há, lógico, corolários menores aqui e ali, até agora esquecidos e não nomeados. Escaramuças esparsas, mas não passam disso; diversão para desviar do propósito.


Resumidamente, empresas do setor privado pagavam propina a políticos, partidos políticos e diretores indicados por políticos em postos-chave na Petrobras para obter vantagens e contratos com a empresa nas suas (deles) próprias condições. Resumindo ainda mais; a Petrobras pagava muito mais caro (incluindo-se aí, a propina de todo mundo) por serviços prestados subpar. Um claro desvio de dinheiro público de proporções ainda a definir contabilmente... mas, muito provavelmente; Bíblicas.
Arts. 157 e 312 a 327 do Código Penal. Art. 316, particularmente, para começo de conversa.


Quase 100% da mídia brasileira, culpa a Petrobrás e a (Re)Presidenta Dilma. Ao ponto de alguns políticos ligados à oposição, a agendas Neoliberais muito particulares, e esquecendo posturas históricas, já terem projetos prontos para fatiar e vender a empresa. E, sob o pretexto do Estado Mínimo desfazer-se dela, como já o fizeram antes com comunicações, bancos estaduais, energia elétrica e água.
 
Mais uma vez me pergunto: "será que ninguém está prestando atenção ao movimento?"






Referências

Sandro Pozzi, Engenheiro dos EUA avisou há um ano sobre a fraude da Volkswagen - http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/23/economia/1442989565_895952.html, El País, 25.09.2015.
Alvaro Sanchez, Os pontos-chave para entender o escândalo da Volkswagen - http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/22/economia/1442929060_472526.html, El País, 22.09.2015.
Paulo Moreira Leite, O Castelo de Cartas da Lava Jato, - http://jornalggn.com.br/noticia/o-castelo-de-cartas-da-lava-jato-por-paulo-moreira-leite,
André Araújo, A criminalização das consultorias -
Folha, Entenda a Operação Lava Jato, http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/11/1548049-entenda-a-operacao-lava-jato-da-policia-federal.shtml
etcetera.
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