sexta-feira, 24 de outubro de 2014

E se não os treinarmos e eles ficam?

Nestes dias atrás participei de uma discussão sobre qualificação. Mais especificamente, o plano nacional (ProNaTec - Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e  Emprego) e estadual (Etecs, em São Paulo) de cursos técnicos.

Claro que os germes da discussão não foram exatamente os planos em si. O que era discutido era a falta de um profissional minimamente qualificado, ou melhor, da falta de mão de obra qualificada para suprir a demanda da indústria e serviços. Esta falta faria com que o desenvolvimento e a qualidade do produto fossem menores que aqueles seus similares estrangeiros. O argumento maior era que não se formavam colaboradores de qualidade, enfim.
No entanto, e apesar de todos concordarem naquele ponto, passava-se por alto o fato da existência dos programas citados. Me parece que no afã crítico dos participantes simplesmente se ignoravam aquelas iniciativas.

Antes disso, já tinha visto uma daquelas frases que circulam pela internet, que acabou me chamando a atenção: "What if we train our people and they leave? What if we don't train them and they stay?" que me parecia resolvia a questão de forma simples e quase definitiva.

No nosso país, o problema do trabalhador desqualificado, passa invariavelmente pela política.
A educação foi relegada, por nossos governantes todos, a terceiro ou quarto lugares, se acaso isso. Foram criadas gerações inteiras acreditando que, se não sabiam, era porque Deus quis assim. E isso era condição suficiente e necessária para tal. Uma verdadeira estratificação social. Depois essas mesmas crenças foram usadas para manter o povo sob controle e dominância para obtenção de interesses particulares além de qualquer doutrina religiosa. E, esses interesses nem precisavam acreditar no mesmo Deus ou estar na mesma terra.


Alguma vez se perguntou do porquê das descobertas do século XV? Imaginar a terra redonda não era, de forma alguma, uma inovação assim tão inovadora. Pode tirar isso da cabeça. Filósofos gregos, bem antes de Colombo, já haviam formulado a teoria. E ninguém rira deles. Foram "casualmente esquecidos" (what you don't know, won't be able to hurt you).

Um dos maiores paradoxos atuais é que a tecnologia moderna, aquilo que você usa, não o que você compra, se tornou estratégica em certos aspectos. A ponto de países como o Canadá e os Estados Unidos, avalizarem ou não, a compra e venda de empresas criadoras e detentoras de patentes em tecnologia. Colocando em termos mais simples, seria algo como verificar se as laranjas produzidas em Limeira-SP e vendidas em Goiânia-GO têm sementes. Se estas sementes forem viáveis (capazes de produzir pés de laranja, lógico) restringe-se a venda para diminuir e não criar concorrência. Ou evitar coisa pior, Goiânia-GO começar a exportar laranjas para Limeira-SP.
Viu como é simples?
Parece piada de bobo, mas imagine isso ocorrendo exponencialmente... com tecnologia. Com tudo.


Estarrecedor é que ninguém leia além das primeiras camadas superficiais do bordão: diferencial estratégico, e todo mundo ache 'bunitim' e simpático.

O simples fato de fazer as coisas corretamente muda o resultado. O simples fato de "saber" fazer as coisas corretamente, acarreta uma mudança ainda maior. E é isto o que deveria estar sendo debatido. O que os nossos governantes deveriam insistir em aprimorar. Mesmo que eles não cheguem a aproveitar desse resultado. Mas, este nivel de altruísmo, não é o que devemos esperar. Ou, seria o que deveriamos esperar?

Se as propostas são, entre outras, a de trabalhar pelo país, e nós somos (em conjunto) o país, não seria melhorar a qualificação da mão de obra uma das formas -corretas- de executar esse trabalho? E, criar uma 'cultura', através da educação de base, capaz de quebrar os paradigmas antigos de: "Deus quis assim", a bovina passividade e violência sem sentido?

É bem possível que assim fazendo teremos um país, uma sociedade e um povo, melhor.
O produto e o serviço desenvolvido por ele será, induvidavelmente melhor. Estaremos qualificados e, nada mais natural que nosso produto seja espelho dessa nossa qualificação.

Hoje, está tendo a Feira Tecnológica das Etecs do Centro Paula Souza, em São Paulo (de 21 a 23/10, no Pavilhão de Exposições da Barra Funda) e, ao igual que no ano passado, pude perceber exemplos dos primeiros passos tímidos de uma garotada entusiasmada com o que consegue fazer.
Dê-lhes as condições básicas, e estes brotos aparecerão. 



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